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A música na era do dedo de prosa

Postado dia 16 de dezembro de 2008

A forma de se falar de música muda tanto quanto a própria música? As conversas sobre discos e canções conseguem acompanhar o ritmo das recentes transformações tecnológicas? É claro que a pergunta só existe em função de uma leve suspeita de que existe aí uma defasagem. Em algumas situações, as novas condições de se produzir, divulgar e consumir música parecem estar à frente da capacidade geral de gerar bons comentários e recepções interessantes.

Ed MottaLembra daquele garoto que levantava no meio da platéia do Programa Livre para, lá pelas tantas, perguntar de onde veio o nome da banda? Nos anos de 1990, isso já rendia pequenas vaias de estranhamento… (alguns artistas passavam a inventar histórias para não ter que repetir a mesma e enfadonha resposta, o que gerava momentos de humor ácido, como a entrevista com o Smashing Pumpkins). Talvez não com a mesma inocência, a pergunta vem sendo, no entanto, reeditada, justamente em um cenário de muita informação.

No mês passado, em palestra na capital paranaense, Arnaldo Antunes lidou elegantemente com essa falta de sincronia entre reações da platéia e condições da música contemporânea, para usar um termo também de certo modo defasado. Alguém pergunta se é interessante hoje que uma banda misture sons para adquirir estilo. O ex-Titãs apenas ressalva que isso não é mais uma escolha, mas um a priori para se fazer música. A questão não é saber se vai misturar ou não, mas como vão se dar as hibridizações, há um bom tempo inevitáveis (que o diga a própria carreira de Arnaldo). Isso para não citar as perguntas mais ‘acadêmicas’. Às vezes fica a impressão de que dirigimos questionamentos de outra década para a música atual.

Esse descompasso entre (nova?) música e as (velhas?) conversações também se evidencia em certos comentários endereçados aos críticos de música - que lidam com expectativas diversas de públicos distintos (incluindo aí músicos). Dia desses me perguntaram, por exemplo, se ouço apenas “rock pesado”. A recente reação de leitores a uma lista lançada no blog do jornalista Zeca Camargo é exemplar.

O apresentador do Fantástico fez uma interessante recomendação de “Os 15 (+ 1) melhores discos que você não ouviu em 2008″, apenas com pérolas que muito provavelmente passaram longe de nossos ouvidos (e de revistas, jornais, rádios…) durante o ano. A proposta era justamente essa, descobrir sonoridades (mais disponíveis que em outras épocas). A cobrança de leitores para cima do blogueiro lhe rendeu outro post, em que se viu obrigado a explicar por que já está cansado de “música normal”. E é claro que boa parte dos leitores entendeu a proposta, se divertiu com a lista e até acrescentou outras excentricidades sonoras, provando que tais falas estão longe de ser consensuais - aliás, nesses momentos (e também neste blog!) percebe-se bom esforço colaborativo e de diálogo, mas vez ou outra o terreno é permeado por tais falas defasadas. Bastaria postar algo novamente sobre Raul Seixas caso a idéia fosse ampliar a pesquisa de campo…

Mas o auge desse descompasso no ano de 2008 se cristalizou justamente na fala de um respeitável músico. Ficou famoso o embate entre Ed Motta e o crítico musical Ãlvaro Pereira Jr. no programa Altas Horas. E os reclames do músico agora me lembram muito algumas das queixas sobre a lista de discos que não ouvimos e, por tabela, o garoto da pergunta inocente/deslocada sobre a origem do nome da banda. Ed Motta apenas reproduz uma idéia senso comum e de pouca base empírica sobre a crítica musical, na medida em que não contempla suas variações - e a própria diversidade de comentários críticos sobre música disponíveis (como nunca) em sociedade. Isso faz voltar à pergunta inicial. Não à toa, boa parte da platéia ensaiou uma vaia aos comentários, no mínimo ‘batidos’, do cantor.

E será que conseguimos rever/reformular critérios ao longo do tempo para fazer nossas seleções no mundo sonoro? O que levamos em conta para selecionar discos e canções dignos de nossa cuidadosa escuta passou por alterações recentes? Isso é tarefa para outro post.

O verão é outro dia para Brian Wilson: That Lucky Old Sun

Postado dia 9 de dezembro de 2008

O verão é um tempo de descobertas que incluem pessoas, lugares, livros e canções. Com menos trabalho, frio e dias letivos pela frente, olhamos para o ano que passou e estacionou cacos no sofá, para as coisas jogadas pela casa, outras amontoadas na estante ou na pia. E às vezes dessa retrospectiva tipicamente natalina sai alguma novidade. Ou ao menos surge a vontade de ouvir algo diferente, talvez mais refrescante, mas certamente mais atual que a pizza de novembro na geladeira e que um festival de reggae.

Um disco pode ajudar a mudar o cenário, assim como champagne, missa e parentes sempre distantes para alguns marcam a virada de ano. Ainda que seja um disco de alguém que está olhando para o passado (e que passado!). Eternamente na Califórnia, mas nunca no mesmo verão, Brian Wilson está de volta, com o primeiro álbum de inéditas desde o genial Smile, de 2004, maior sucesso não lançado na década de 60.

That Lucky Old Sun saiu em setembro nos EUA. Brian retoma a parceria com o letrista Van Dyke Parks (autor da pérola Heroes and Villains, do disco anterior) e com o tecladista Scott Bennett. A banda que aparece no trailer do DVD oficial (a ser lançado no fim de janeiro de 2009) é praticamente a mesma das últimas turnês, o que é uma ótima notícia. As 17 faixas ininterruptas duram 38 minutos, incluindo narrações, e sustentam uma espécie de relato sobre um dia na vida de Los Angeles, com evidentes misturas (sem trocadilhos) biográficas.

O título do novo trabalho deriva de canção homônima que abre o disco, popularizada originalmente em 1949 por Frankie Laine. Brian sempre gostou dessa composição de Beasley Smith e Haven Gillespie e há poucos anos ouviu uma versão de Louis Armstrong para o clássico, que então rearranjou e ensinou para a banda.

Lucky conta com a bela peça-declaração Midnight’s Another Day (com piano, trompa, cordas). “All these voices, all these memories, made me feel like stone. All these people make me feel so alone”. Outro destaque é a memorialista Forever She’ll Be My Surfer Girl - que não deve nada a outros momentos (agri)doces do ex-Beach Boys. Difícil passar batido peça pela tocante passagem vocal Can’t Wait Too Long. Há espaço ainda para rimas de espanhol com inglês em Mexican Girl e refrão pop de Good Kind of Love. Já seriam motivos suficientes para um lugar especial em meio aos entulhos fonográficos de 2008.

A crítica norte-americana, de modo geral, aponta o novo álbum como encerramento de um ciclo iniciado em 1961, com o single Surfin. Após um passeio pelas histórias do país em Smile, Brian agora retorna à sua idealizada Southern California. Para além de simples nostalgia, olha-se para o passado e ao mesmo tempo se pratica/consolida um ponto de virada.

Está tudo lá. Clima surf, vocalizações, criatividade (sem abrir mão de simplicidade, aos 66 anos) nas composições, no arranjo e uma fascinante ambigüidade, que o torna triste, um pouco patético, mas também simpático, festivo e… rock’n'roll. O que só faz alimentar a controversa, arriscada, mas tentadora hipótese de que o Brian da carreira solo em alguns pontos é melhor do que o dos Beach Boys. Ao menos em dias assim, que escondem outros depois da meia-noite.

http://www.myspace.com/officialbrianwilson

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R.E.M. em Porto Alegre: rápido e avante para a lua

Postado dia 11 de novembro de 2008

Lálika Stadnik
Rafael Schoenherr

R.E.M. em PoA

Estamos de volta. Foi assim que Michael Stipe se dirigiu ao público pela primeira vez no Zequinha Stadium, depois de quatro músicas iniciais que fizeram o gramado tremer na última quinta-feira (06/11). A frase também vale para este blog, após um longo e tenebroso inverno sem café psicodélico. A apresentação do R.E.M. em Porto Alegre inaugurou o retorno da banda norte-americana ao Brasil, após participação no Rock in Rio 3, em 2001. Mas não se trata apenas disso.

O R.E.M. trouxe para cá a turnê do novo álbum, Accelerate, o que é digno de nota, por se tratar de um disco de carreira - numa discografia que completa 25 anos sem grandes intervalos ou turnês caça-níqueis. Além da capital gaúcha, o trio da Geórgia visitou o Rio de Janeiro no último sábado (08/11) e faz dois shows em São Paulo, nesta segunda e na terça-feira (10 e 11/11). O último disco datava de 2004, o não muito bem recebido Around The Sun. Accelerate marca a volta por cima, encerra a pausa desde então e retorna ao rock’n'roll rápido, seco e direto. Stipe, Mike Mills e, principalmente, Peter Buck sabem disso, o R.E.M. está de volta ao rock e pisa fundo.

O show em Porto Alegre foi o primeiro da banda com Barack Obama eleito presidente dos Estados Unidos, o que faz todo o sentido para uma banda que abertamente apoiava o candidato democrata durante a campanha nos espetáculos. Não faltaram momentos de comemoração durante a apresentação. O “estamos de volta” do vocalista e líder Michael Stipe ganha aqui outro sentido, principalmente para uma banda que sobreviveu aos impérios Reagan e Bush de conservadorismo e atraso norte-americano.

Com a turnê de Accelerate, o R.E.M. volta a emplacar um bom disco, retorna às suas bases rockeiras e aos braços do heterogêneo público, recuperando fragmentos de possibilidades de mudança e sobrevivência em um cenário fonográfico-econômico-político então desfavorável.

Zequinha Stadium
Assim estava escrito na camiseta oficial da turnê, que já havia passado pela Argentina e também pelo Chile, pela primeira vez. Então não foi difícil encontrar quem tivesse visto a banda em Buenos Aires e iria conferir novamente em Porto Alegre. O Zequinha fica nos arredores da capital, a menos de 15 minutos de táxi do aeroporto Salgado Filho. Se fosse em Curitiba, certamente gastaríamos mais do que R$ 14 na corrida. O estádio é simpático e modesto, o que nos leva imaginar que o próximo show dos caras pode muito bem ser no Germano Krüger, em Vila Oficinas, em Ponta Grossa (PR).

As redondezas, ao menos para uma tarde de quinta-feira, estavam tranqüilas, com esquinas que mais lembravam um balneário litorâneo. Depois de uma volta olímpica (só que por fora do Zequinha), encontramos o portão da área VIP. Chegamos às 16h, em segundo lugar. Os três primeiros fãs vestiam camisetas pretas respectivamente com R, E e M, além de It’s the end of… Brasil. O rapaz do isopor negociava duas latas de cerveja por cincão, ou cinco pilas. Lá pelas 17h30, foi só correr para a primeira fila junto à grade de proteção e se esticar no gramado.

Saiu hoje na Folha de S. Paulo que “O estádio abrigou cerca de 14 mil espectadores, número maior do que pode receber o Via Funchal [em São Paulo] em duas noites”. Nada mal para o primeiro show internacional no campo do Esporte Clube São José, fundado em 1913 - informa a matéria.

Zequinha, portão VIP às 17h

Quatro músicas iniciais
As quatro primeiras canções foram suficientes para incendiar e convencer a platéia de que eles realmente estão de volta. Dali em diante, Stipe comanda a festa com sobras.

Confira trecho de Animal.

1 - Living Well (Accelerate)
2 - I Took Your Name (Monster)
3 - Kenneth (Monster)
4 - Animal (The best of…)
5 - Drive (Automatic)
6 - Heron House (Document)
7 - Man Sized Wreath (Accelerate)
8 - Ignoreland (Automatic)
9 - Hollow Man (Accelerate)
10 - Great Beyond (Man on the Moon - filme)
11 - Electrolite (New Adventures…)
12 - Imitation of Life (Reveal)
13 - Walk Unafraid (Up)
14 - One I Love (Document)
15 - Find the River (Automatic)
16 - Let me in (Monster)
17 - Horse to Water (Accelerate)
18 -Bad Day (The best of…)
19 - Orange Crush (Green)
20 - End of The World (Document)
21 - Supernatural (Accelerate)
22 - Losing my Religion (Out of Time)
23 - Everybody Hurts (Automatic)
24 - Cuyahoga (Lifes Rich Pageant)
25 - Exhuming MacCarthey (não tocaram)
26 - Rockville (não tocaram)
27 - Driver 8 (não tocaram)

28 - Man on the Moon (Automatic)

*deixamos em azul o bis tal como na folha arremessada do palco. Acrescentamos o disco de origem das canções.

Discografia
1983 - Murmur
1984 - Rechoning
1985 - Fables of the Reconstruction
1986 - Life’s Rich Pageant
1987 - Document
1988 - Green
1991 - Out of Time
1992 - Automatic
1994 - Monster
1996 - New Adventures in Hi-Fi
1998 - Up
2001 - Reveal
2004 - Around The Sun
2008 - Accelerate

*não estão listadas as coletâneas.

Rock’n'roll rápido, seco e direto
Accelerate possui menos de 35 minutos de som, sendo que quatro das 11 músicas têm menos de dois minutos e meio. Marca econômica interessante, em sintonia com a capa básica em preto-e-branco. A hipótese de Arthur Dapieve (na verdade, de um de seus personagens), em divertida crítica para a revista Bravo, é de que isso funcione como uma espécie de concessão “à turma que não consegue ouvir nada com mais de três minutos, esse povo do iPod” - resmunga Dino em conversa de bar.

Os riffs pungentes de Living_Well_Is_The_Best_Revenge, Supernatural_Superserious e Horse_To_Water puxam o disco e têm boa resposta ao vivo. Essa faceta veloz acaba por valorizar performances de maior lirismo, como Hollow Man e Let Me In - em momento tocante no show, em que a banda se transforma em uma roda de amigos, com Mills ao violão e Peter no teclado. Stipe de costas para o público interpreta a canção-homenagem a Kurt Cobain, do disco Monster (com sua característica sujeira guitarrística). Em pensar que por pouco não gravaram um disco juntos…

E o que é melhor: diferente de outros resquícios do grunge que também deram as caras pelo Brasil, como Offspring, o R.E.M. ainda toca rápido e empolga.

Principalmente, Peter Buck

Peter Buck, guitarrista

Chega de overdubs e mixagens eternas. Essa foi a condição para que o guitarrista voltasse aos estúdios com a banda após últimas incursões fonográficas não muito satisfatórias. Daí resulta o clima ‘ao vivo’ do disco, com maior pegada. Tanto é que na metade de 2007 o R.E.M. fez shows ensaios em Dublin para sondar repostas ao novo trabalho.

“Eu sempre sugeri que trabalhássemos de forma mais rápida e espontânea, mas os outros realmente não pensavam da mesma forma. Eu acho que, talvez, a forma como o último disco foi recebido meio que os chocou e os fez perceber… que eu estava certo”, declarou Peter Buck ao New York Times.

Momentos de comemoração durante a apresentação

Stipe segura faixa pró-Obama

Nova faixa da platéia a favor de Obama

Sobreviveu aos impérios Reagan e Bush
Accelerate confirma que o R.E.M. conseguiu fazer a difícil travessia para os anos 2000. Justamente quando o primeiro álbum no esquema de grande gravadora, Green, completa 20 anos. É o álbum da clássica Orange Crush e da capa de referência evidente à causa ambiental. O efeito estufa gerava preocupação em 1988 nos EUA. Antes disso, o primeiro disquinho da fase independente pela I.R.S., Murmur, havia sido eleito o melhor disco de 1983 pela Rolling Stone. A banda viu surgir a MTV e emplacou clipes no mínimo habilidosos na linguagem audiovisual. Atravessaram os anos 90 experimentando o extremo estrelato (com Losing My Religion, do Out of Time) e o relativo retiro de quem ousa e se arrisca, como em New-Adventures… - de onde saiu a bela Electrolite, interpretada também em Porto Alegre, com Mills ao piano.

Heterogêneo público
Ao nosso lado direto, um fotógrafo profissional, aparentando uns 40, que já havia conferido o R.E.M. em Paris. Ele fez fotos do evento em PoA, entre um pulo e outro. Do outro lado, gurizada de uns 20 no máximo cantando todas as letras, no melhor estilo fã-clube - o que deixou esses desmemoriados relativamente envergonhados. No fim, todos misturados, alguns com família e tal. O show da vida de muitos certamente…

O longo inverno do Pink Floyd (à espera do bom e velho sol)

Postado dia 22 de setembro de 2008

O inverno de 2008 se despede e melancolicamente leva embora um dos responsáveis pela magia de uma das principais bandas da história da música. Uma nova reunião do Pink Floyd (ou de uma de suas formações) agora se vê frustrada não por desencontros de agenda, conflito de egos, interesses econômicos ou quaisquer outros fatores inerentes à indústria do disco e do show business que esses mesmos ingleses ajudaram a reinventar. Sir Richard Wright, tecladista e membro fundador, morreu na segunda-feira, 15 de setembro, vítima de câncer, aos 65 anos, depois de uma “rápida batalha” contra a doença - como divulgou a família em nota oficial.

 

A data divide o mês ao meio tal como o Floyd conseguia dividir a vida de seus incontáveis fãs em antes e depois do contato com seus discos. De tal modo que a notícia do falecimento de Wright certamente levou inúmeras pessoas a relembrar suas experiências de vida ao som de David Gilmour, Roger Waters, Syd Barrett e Nick Mason, a depender da fase (e da idade). A própria dimensão e repercussão do trabalho da banda me levam a confiar que não fui o único na semana passada a buscar na estante o LP com a vaca estratosférica na capa… e assim voltar no tempo.

Ouvir Pink Floyd era um ritual. Sempre havia uma situação que marcava essas escutas, como se o tempo girasse diferente naquelas manhãs, tarde, noites… e madrugadas a fio por ruas escuras que viravam o cenário de um videoclipe psicodélico ao vivo. Os discos nos obrigavam a uma experiência dedicada, por assim dizer. Daí que não era o tipo de música preferida para diversão, para curtir o tempo todo ou para distrair ao fundo, mas havia um tipo de seriedade e de magia ali que nos dragava de nossos pequenos mundos para dentro daquela sonoridade. E lá estávamos ao redor do disco a ouvir, como garotos contando histórias em volta da fogueira.

Faz apenas dez anos que um grupo de amigos viajou junto para a praia, naquela fase triste de vestibulares e dúvidas sobre nossa memória que não acabam mais. Chegando ao apartamento no litoral, um dos camaradas fechou as cortinas e colocou para rodar o mítico CD The Dark Side of the Moon (1973). E assim se passou aquela ensolarada tarde. Mais estranho que isso é o fato de aquele ritual conseguir amarrar amigos com os gostos musicais mais variados. Desde o simpático motorista de chapéu em carro rebaixado acostumado aos sertanejos e variedades gauchescas até o amigo mais calculista e bem informado, antenado a novidades eletrônicas (como Prodigy), com passeios por Racionais (”Aqui estou mais um dia…”). Sim, existiam os aficionados em Floyd. Sim, para voltar à normalidade, claro que houve briga entre os amigos e desafetos típicos de qualquer trip jovem em que saímos por aí procurando saber quem somos e tomar decisões sobre a vida. “Sweet dreams are made of this”…

Pink FloydNo ano seguinte estaríamos seguindo cursos diferentes e encontrando cada vez menos, na mesma proporção em que o catupiry da pizza não era mais suficiente para gerar crises existenciais. E aquelas canções funcionariam como fios invisíveis que ligam vidas necessariamente separadas e diferentes - cada um na sua, mas com alguma coisa (sonora!) em comum, para lembrar o slogan de cigarro da época. Afinal, eram dias em que esperávamos os acontecimentos que mudariam nossas vidas, e ainda não conhecíamos aquela sensação de ter visto e ouvido de tudo (mesmo sem conhecer a metade). Enquanto isso, estudávamos, saíamos à noite, ouvíamos música. E encontrávamos aqueles que seriam nossos melhores amigos (desses que a gente faz questão de ir ao casamento anos depois).

Na faculdade, Pink Floyd ainda nos perseguiria, em geral na pergunta da moda ‘você já ouviu o Dark Side junto com O Mágico de Oz?’. A curiosidade em torno da experiência levaria a outras pessoas, situações e rodas de conversa daí para frente. Tocávamos Confortably Numb toscamente em um boteco não menos tosco em frente à universidade. E sempre os bêbados mais resistentes pediam bis. Aí a música passava dos dez minutos, com solos de guitarra de arrebentar a corda.

Conferir o VHS do filme The Wall (que tem por trilha o disco duplo homônimo, de 1979) também era referência obrigatória desde os tempos de segundo grau. Faz lembrar de outro amigo guitarrista, mais velho, casado e com mais estrada nos bons sons, que a partir de nossa recomendação é que foi ver o filme, em casa, sozinho e teve pesadelos nas noites seguintes. Eu e um parceiro tecladista nos divertíamos, orgulhosos, com aquilo. Essa era a idéia - não tem como esquecer a cena em que o garoto leva um rato (de estimação) para casa. Aliás, boa parte dos seres da floresta também conhecidos como tecladistas naquela época e por aquelas bandas era tributária de Richard Wright. Em troca, o guitarrista com pesadelos nos apresentou Animals (disco de 1977) como trilha sonora para outras viagens, estradas, conversas e boas risadas.

Essa cadeia de situações em torno do Pink Floyd, ao menos para mim, começou como uma daquelas recomendações de irmã mais velha que escutamos com desconfiança e curiosidade - e depois se revelam valiosas (principalmente quando em meio a isso existe Menudo, Dominó, New Kids on the Block…). Ainda cursava o primeiro grau quando ouvi algo pela primeira vez sobre um videoclipe (o que era isso, afinal?) em que crianças em fila entravam em uma máquina e viravam algo como carne moída (uma seqüência extraída do filme). A letra de Another Brick in the Wall (parte II) fazia parte das traduções das aulas de inglês de minha irmã, assim como Another Day in Paradise, de Phil Collins.

A mudança de colégio e de amigos típica da entrada no segundo grau veio, então, acompanhada da descoberta da banda e da discografia por trás daquele single (entoado inclusive por bandas de baile e até mesmo em carnaval). O que não significa que tivéssemos aula de música, mas de literatura. Um inofensivo trabalho escolar sobre A Suavidade do Vento, de Cristóvão Tezza, nos levaria agora a buscar o som que alimentava as neuras de um professor regado a whisky e dores na nuca em uma cidadezinha calorenta e empoeirada do Paraná. Um dos dedicados estudantes conseguiu gravar uma fita K7 com Atom Heart Mother. Sim, o disco da vaca, de 1972 (gravado em 1970 no Abbey Road), que na capa traz apenas… vacas. Sequer o nome da banda aparece. O Lado A inteiramente instrumental abre com a clássica Father´s Shout.

Mas provavelmente o primeiro CD que viria a comprar seria The Division Bell, de 1994. Foi o que acionou visitas mais freqüentes à primeira loja de CDs. Os primeiros trocados iam embora nesse tipo de coisa sem retorno algum e que não dá futuro, como se diz. Só faltava agora montar uma banda e tirar o nome de uma das letras. O disco traz boas parcerias de David Gilmour e Richard Wright nas composições e execuções que colocam os teclados em diálogo constante com o fraseado característico da guitarra, como nas quatro faixas iniciais. Com Lost For Words, o velho Floyd, então com 40 anos de vida, volta a tocar novidades em rádios brasileiras em plenos meados dos anos 90.

Pink Floyd

Por essa capacidade de gerar situações em cadeia e permitir identificar em sua obra uma experiência sonora singular, pode-se arriscar dizer que Pink Floyd funciona quase como um gênero musical, um tipo de som que passaria não apenas a reorganizar o cenário musical, mas também a reorientar a parte das vendas ou as próprias bases da indústria fonográfica.

Costuma-se dizer que Animals foi um álbun anti-comercial. Ainda assim vendeu 12 milhões de cópias. Estima-se que The Dark Side of the Moon ultrapasse a marca das 30 milhões de unidades (reza a lenda que a EMI teve que construir fábricas só para atender essa prensagem). Estatísticas mais modestas apontam 13 milhões e 11 milhões para The Wall. Outros rankins colocam o disco do prisma na capa como o quinto mais vendido de todos os tempos, com 35 milhões de cópias. Com relação ao dos tijolos na capa, comenta-se que é o disco duplo mais vendido da história - e teria então chegado a 20 milhões de unidades. No jogo das estatísticas, ainda dá para encontrar a informação de que Dark Side… vendeu 50 milhões de cópias pelo mundo, cerca de 15 milhões apenas nos Estados Unidos. A própria banda já estimou que 250 mil cópias ainda são vendidas anualmente. Em apuração de 2006 dos discos mais vendidos em 50 anos na Inglaterra, o Pink Floyd ficou em sexto lugar, com a marca do The Dark Side of The Moon - 3,759 milhões. Há ainda quem arrisque finalizar a carreira do Floyd até aqui em “116 milhões de discos vendidos e 25 anos no topo das paradas“, o que também não é nada mal.

Percebe-se que a relevância histórica da banda supera eventuais questões de gosto ou de preferências (claro que essa ritualização da música e dos discos não é o único modo de se fazer rock, assim como o progressivo não é o único gênero existente). O Pink Floyd - com seus shows milionários, vendagens astronômicas, estúdio em um iate, fãs por todo o mundo - é um bem-sucedido dinossauro que testemunhou/financiou uma era da indústria fonográfica. E tal como o encanto das descobertas arqueológicas, adorávamos saber sobre os movimentos recentes desse animal gigantesco, por mais desengonçado que possa parecer aos olhos de hoje .

No ano passado tentei reaver um desses contatos justamente para um show de uma banda cover do Floyd. Fracasso duplo, pois o amigo não pôde ir e o show era um fracasso nostálgico fake, claro, de pessoas forçando a barra para gerar novamente uma situação em função daquela música. Cheiro de naftalina. Parecia um missa de domingo, com gente se emocionando num misto de embaraço e devoção.

Em outro lugar, provavelmente em algum quarto, o sol entrava pela janela. Havia uma vitrola e na mão um LP recém-comprado de Atom Heart Mother. E a canção Fat Old Sun durou a tarde toda. Existem coisas que o inverno não leva, mas deixa congeladas, intactas para sempre em algum jardim secreto.

Pegadas na areia: Robert Plant caminha lentamente

Postado dia 5 de setembro de 2008

Na próxima terça-feira (09) sai o resultado do Prêmio Mercury 2008, que escolherá o melhor álbum britânico de 2007. O páreo é duro entre os 12 indicados, o que permite olhar com certo entusiasmo para o que foi produzido no ano passado por aqueles lados (que musicalmente estão aqui ao lado, pertinho, em questão de minutos para download). Aliás, a banda responsável por alavancar novo patamar nas formas de distribuição de música pela Internet foi indicada pelo álbum In Rainbows. O Radiohead duela com o também gigante Robert Plant. E é sobre o último trabalho dessa figura, sempre bem acompanhada, que vamos conversar.

O ex-vocalista do Led Zeppelin e a cantora Alison Krauss lançaram em outubro de 2007 o disco Raising Sand. É o tipo de álbum que dá vontade de correr para a rua recomendar a um amigo. E tem que ser agora! Existem discos que fazem querer falar dele no elevador para aquele vizinho que você nem conhece direito. Por falar nisso, qual o último disco que te rendeu essa coceira de querer ‘espalhar a boa nova’ o quanto antes? Será que isso denuncia uma obra como ‘atual’? A palavrinha deu pano pra manga no post anterior e ainda estamos discutindo (confere lá nos comentários).

A idéia é de que um disco não precisa necessariamente soar atual para ser um bom disco. Talvez essa relação não seja tão automática quanto a publicidade gostaria (‘mais atual do que nunca’ como sinônimo de bom produto). Tanto é que uma sonoridade/experiência fonográfica datada valeu aqui recomendação entre obras rockeiras de valor para a consulta de quem busca se orientar entre os bons sons já produzidos e que mexem com a escuta nossa de cada dia. Pode ser um dos critérios que auxiliem a definir, situar ou selecionar uma obra no emaranhado musical.

Raising Sand

Mas a coisa só tende a piorar, dependendo do ponto de vista. Pois o disquinho de Mr. Plant e Alison Krauss além de ser atual é um ótimo trabalho. E não é apenas atual por ser do ano passado, mas porque a dupla faz coisas musicalmente aí dentro que soam ‘linkadas’ à nossa época, mesmo em versões de coisas dos anos de 1960.

No geral, no conjunto das 13 faixas, é um disco desacelerado com tendências de country, bluegrass (terreno de Krauss), um pouco de jazz, folk e de rock’n’roll clássico, se assim podemos dizer (acho que pode em se tratando de Robert Plant…). O que não significa que não tenha balanço. Tem e muito. A abertura Rich Woman, com baixo e bateria dançantes, já é de sair estalando os dedos, trançando as pernas pela sala e dando chutinho no ar no meio da rua. É um balanço ou uma energia que está também na marcação da voz e não apenas na cozinha, reparem. Critério então para identificar bons cantores? Ok, talvez numa próxima.

Raising Sand  ‘pega pesado’ na lentidão e ‘pega leve’ na rapidez/agitação. Isso cria uma dinâmica instigante que nos move sempre curiosos pelos 57 minutos. As faixas lentas são realmente lentas, no máximo andantes, mas sem morosidade (o contrário de baladinha romântica arrastada da moda de algumas boy bands nacionais). Vai-se aos seus detalhes, ou mostra-se economicamente suas entranhas.

A quarta faixa, Polly Come Home, é uma das músicas mais lentas e belas que lembro de ter ouvido. A versão para a canção de Gene Clark (1944-1991) dá a impressão de que assistimos a uma cena em câmera lenta, com as notas saindo vagarosamente da guitarra e sendo acompanhadas pelo espectador em um giro de 360 graus. Outra canção relida do ex-The Byrds (ele deixou o grupo no início de 1966)  é Through the Morning, Through the Night, originalmente gravada em 1969.

Dessa lentidão resulta um riqueza instrumental (violino, slide guitar, bateria variada) que se expressa nos detalhes, como nos belos violões que devem interessar aos apreciadores (e praticantes) de uma boa sonoridade acústica nas seis cordas. A esse respeito, nada melhor que a sétima faixa, Please Read The Letter, canção de 1998 da dupla Robert Plant/Jimmy Page. A frente lentidão kunderiana (isso?) ainda ganha o reforço de Trampled Rose, música de Tom Waits – aí é injustiça. Musicalmente, é onde o disco parece estabelecer algum diálogo (sobretudo o vocal de Alison) com seu rival de Prêmio Mercury, o Radiohead.

Robert Plant e Alison Krauss

A frente rockeira ou de balanço do CD consegue ser dançante e ao mesmo tempo suave. Som com energia sem ser agressivo e longe de ser gritado (um belo trabalho vocal de Robert Plant). Nada a ver, portanto, com rockeiros antigos com malha de ginástica em clipes toscos, como brincou um amigo. Antítese também dos incessantes sacolejos de Mick Jagger filmados por Martin Scorsese, como lembrou outro comparsa.

A introdução de guitarra bluesy de Let Your Loss Be Your Lesson parece Hendrix. Gone, Gone, Gone (Done Moved On), dos Everly Brothes, ajuda no clima surf e remete a Beach Boys. Ainda assim, não é revisionismo. O tratamento dedicado a cada canção permite ouvir criação nesse trabalho de tradução de obras famosas do cancioneiro norte-americano. Estranha capacidade do disco em remeter, por um lado, aos belos arranjos da dupla Richard and Linda Thompson – recomendação, aliás, de outro camarada (‘o artista que antes do blog não já dizia não’). Por outro, ainda há algo do ex-líder do Led ali capaz de reverenciar, sutilmente, Elvis, Chuck Berry e o rock de mexer quadris – mesmo num álbum desacelerado (talvez aí esteja a originalidade).

Boa pedida para feriados de dia da padroeira. Indicado também para aquelas vezes em que desaceleramos para ver a vida passar e passamos a observar o mundo de fora. Momentos em que o silêncio e a quietude são tão fortes que ecoam e viram… música!

Para fechar, alguém lembra quem ganhou o Prêmio Mercury do ano passado?

Faixas:

1. Rich Woman (Dorothy LaBostrie-McKinley Millet)
2. Killing the Blues (Rowland Salley)
3. Sister Rosetta Goes Before Us (Sam Phillips)
4. Polly Come Home (Gene Clark)
5. Gone, Gone, Gone (Done Moved On) (Phil and Don Everly)
6. Through the Morning, Through the Night (Gene Clark)
7. Please Read The Letter (Robert Plant-Michael Lee-Jimmy Page-Charlie Jones)
8. Trampled Rose (Tom Waits-Kathleen Brennan)
9. Fortune Teller (Naomi Neville)
10. Stick With Me Baby (Mel Tillis)
11. Nothin’ (Townes Van Zandt)
12. Let Your Loss Be Your Lesson (Milt Campbell)
13. Your Long Journey (A.D. Watson and Rosa Lee Watson)

Raul Seixas: 35 anos de uma mosca em nossa sopa

Postado dia 29 de agosto de 2008

O primeiro disco solo de Raul Seixas completa 35 anos. A comemoração se mistura aos já famosos ritos que relembram a passagem de mais um 21 de agosto, data de falecimento do cantor em 1989. Gravado em 1973, o LP Krig-Ha Bandolo! figura como visita obrigatória não só aos rockeiros de plantão como aos demais interessados nas variantes da música popular brasileira. A música das 11 faixas é tudo menos atual, o que não vem a ser problema algum. Aliás, aí pode estar sua riqueza.

O álbum flagra uma época em que era possível e de interesse ‘falar para todo o país’. A pretensão era ser ouvido por todos e as condições estavam dadas, com a ampliação do acesso a TV e consolidação da indústria fonográfica associada ao rádio (mesmo cenário de repressão política, vale lembrar). O folk-brega-AM Ouro de Tolo, sobre a decadência mediana incessante brasileira, primeiro sucesso do disco, ilustra bem a proposta.

Em entrevista no mesmo ano para o jornal O Pasquim (outra referência de produção cultural que pretendia discutir o país, ainda que fosse a partir do Rio de Janeiro), Raul explica a recepção popular para aquela que é a última canção do disco, mas foi lançada anteriormente em seu segundo compacto pela Philips. “O intelectual recebia de uma maneira, o operário de outra. Lá em casa tá acontecendo uma coisa muito engraçada. Atrás do edifício estão construindo um outro enorme, então os operários cantam o dia inteiro Ouro de Tolo, com versos que eles adaptam para a realidade deles. Eles transformam os versos, dizem: ‘Eu devia estar feliz porque eu ganho vinte cruzeiros por dia e o engenheiro desgraçado aí…’ Eu ouço o dia inteiro eles cantando isso aíâ€.

 Raul Seixas (1945-1989)

 A música foi ‘fisgada’ do disco que já estava pronto e lançada primeiro em um compacto. Tanto é que Raul, na mesma entrevista, defende que ela é um componente de uma “ópera†maior, com canções conectadas – e seria injusto, portanto, tomar a parte pelo todo. O disco foi a forma de comunicação encontrada e arquitetada por Raul para chegar às massas. Mas para isso foram gastos anos de carpintaria… O seu disco de estréia não é exatamente sua estréia nos estúdios.

Acredita-se que sua primeira experiência fonográfica tenha sido a gravação de um 78 rotações em 1964. Em 1968, sai oficialmente o primeiro trabalho em disco – Raulzito e os Panteras. Já em 1970 e 1971, trabalha como produtor na CBS. Sem o conhecimento dos mandachuvas, faz a produção e participa da gravação do LP Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez, com canções hoje muito revisitadas. Inova, ou ‘toca horror’, ao trazer sonoridades e talvez até pessoas em nada comuns ao ambiente de estúdio. Comenta-se que Raul abriu as portas para quem estava passando na rua entrar e fazer um barulho. E em 1973, mesmo ano de Krig-Ha Bandolo!, é lançado o LP Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock, gravado pelo carimbador maluco beleza e sua banda, apesar de sequer receber os créditos no disco.

“Eu tive uma escola muito importante, que foi a CBS como produtor de discos de Jerry Adriani, de Wanderléa, daquela coisa toda de iê-iê-iê. Eu produzia discos para o Trio Ternura , aquele pessoal. Foi uma vivência fantástica para mim. Aprendi muito a comunicarâ€, explicou ao Pasquim na época. O álbum de estréia solo de Raul tem, portanto, pertinência histórica por capturar a sonoridade de alguém que aprendeu a usar tecnicamente o estúdio como grande laboratório. E o ganho técnico aqui se converte em capacidade comunicativa.

Essa ampla comunicação se traduz em muito hoje (também) nas inúmeras imitações baratas de esquina, em ares místicos e mensagens de auto-ajuda ou no folclore que acompanha fenômenos de massa com relativa longevidade – como as TVs e rádios que repetem sempre as mesmas (e nem sempre melhores) canções quando falam do cantor. Nesse sentido, duas inserções recentes na TV – uma em matéria do programa CQC, outra em programa supostamente especial da MTV – apenas reforçam esse tratamento muito mais pela micagem e pela filosofia de botequim do que pela música propriamente, em que pese essas coisas por vezes se contaminem.

Talvez essa leituras/escutas/recepções folclóricas resultem da dificuldade geral de se descongelar um passado necessariamente congelado. Ao menos pela ótica de que esse primeiro disco de Raul marca uma postura de estar fora dos ares de sua época, avessa ao lance de ser um cara do seu tempo. Predomina um clima propositadamente deslocado, como alguém que procura toda hora colocar o mundo entre parênteses – o que se expressa em temas escapistas e também nas experiências sonoras. Na música do ilustre baiano, as coisas do mundo não se resolvem por aqui, mas em outro lugar.

Krig-Ha, bandolo! (1973)

Faixa-a-Faixa
No caso de Krig-Ha Bandolo! (grito do Tarzan indicando que os inimigos estão chegando), as coisas se resolvem muito bem é no estúdio e nessa forma singular de comunicação chamada disco. É nessa coleção coerente de canções que reside o potencial do álbum. A abertura, não à toa, é uma vinheta com gravação caseira do Raul criança já ensaiando um rock’n’roll – algo impensável na idéia comum do LP como mero registro da performance musical. Disco como concepção e não como mero registro.

Mosca na Sopa é hit sem adotar o formato de canção pop. Mistura berimbau, couro de lavadeiras, variação rítmica, além de um humor tipicamente incômodo. Sem perder o fôlego, segunda canção (terceira faixa), segundo sucesso deste primeiro disco. Metamorfose Ambulante tende a uma balada, põe o baixo para cantar junto a um coro gospel no melhor estilho With a Little Help From My Friends versão Joe Cocker.

Dentadura postiça acelera o andamento com baixo galopante, enquanto a escapista As minas do Rei Salomão apresenta ao público a parceria então nascente com Paulo Coelho. A faixa seis talvez seja a mais triste do disco. Dedilhado de violão com pratos e piano ao fundo. Término majestoso com lálálá e efeitos. “Diga, meu amor, pois eu preciso escolher / Apagar as luzes, ficar perto de você / Ou aproveitar a solidão do amanhecer / Prá ver tudo aquilo que eu tenho que saberâ€, declara.

A famosa Al Capone acrescenta uma pitada de rock, com direito a referências pop, paradinha a Elvis e solo de guitarra. Não à toa, em seguida vem uma homenagem acústica cantada em inglês ao rei. A faixa nove bota a banda para funcionar: Rockixe, outro ponto alto do disco, traz belo naipe de metais num rock mais dançante, tendendo ao baião e flertando com o funk. O lamento folk meio sertanejo Cachorro Urubu prepara Ouro de Tolo, dizendo “Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era…â€.

Digno de consulta, portanto, esse momento em que o popular – pela chave da música brega e também do rock – não é sinônimo de atualidade, mas esbarra justamente em um sentimento de resistência a participar de seu tempo. Em oposição ao discurso de exaltação, o inimigo traz (calculadamente, como é próprio da mosca) doses salutares de insatisfação. Oh baby, a gente ainda nem começou…

Ouça o disco

Faixas:
01 - Introdução: Good rockin tonight (R. Brown)
02 - Mosca na sopa (Raul Seixas)
03 - Metamorfose ambulante (Raul Seixas)
04 - Dentadura postiça (Raul Seixas)
05 - As minas do Rei Salomão (Raul Seixas e Paulo Coelho)
06 - A hora do trem passar (Raul Seixas e Paulo Coelho)
07 - Al Capone (Raul Seixas e Paulo Coelho)
08 - How could I know (Raul Seixas)
09 - Rockixe (Raul Seixas e Paulo Coelho)
10 - Cachorro urubu (Raul Seixas e Paulo Coelho)
11 - Ouro de tolo (Raul Seixas)

Confira a entrevista de Raul Seixas em O Pasquim (1973)

Raul seixas (1945-1989) – veja biografia

Vídeos

Em 1972, no Festival Internacional da Canção, Raul Seixas defende o rock-baião “Let Me Singâ€.

Professor Raul explica sua mistura de rock com baião, confira.

Ouve algo (solitário) em meio à multidão: efeito MP3

Postado dia 22 de agosto de 2008

Há um restaurante de massas no mercado municipal de Curitiba (equivalente ao mercado público de outras capitais) onde a distância entre as mesas é de 30 centímetros. Faz-se a refeição necessariamente muito próximo, em geral, de estranhos na mesa ao lado. Chama a atenção por não ser prática tão corrente por ali. Mas a situação é comum a diversos restaurantes, cantinas, pastelarias e praças de alimentação em várias cidades, certamente. A imagem é uma ‘versão refeitório’ daquela cena clássica de um mar infindável de datilógrafos , como no filme Kafka.

Kafka (1991)
Cena do filme Kafka (1991), de Steven Soderbergh, inspirado nas obras do escritor.

Algo semelhante ocorre em relação à maneira como devoramos música em lugares públicos. Há gente com fone de ouvido durante o almoço em restaurantes, no ônibus lotado, em caminhadas pela cidade, na fila do mercado. De onde vêm e o que ouvem all the lonely people? A escuta nesses casos é solitária, da ordem da intimidade, tal como a ingestão de alimentos. Mas ela se dá cada vez mais em meio a estranhos, que por sinal estão muito próximos – com o detalhe de que não sabem o que o outro ouve.

A possibilidade de levar música para ouvir em qualquer lugar é reflexo da acelerada miniaturização dos aparelhos de reprodução musical. E o efeito MP3 parece ter amplificado tal situação, que deriva do rádio no carro, do walkman e outras formas mais ou menos portáteis de reproduzir nossas próprias seleções sonoras. Chegou a conhecer alguém minimamente musculoso que carregava o aparelho de som (um portátil, como se dizia, com rádio FM e cassete duplo) no ombro e saía para curtir um balanço em alguma rua ou esquina com os amigos?

Ao comer macarrão no esmagado restaurante, às vezes é impossível não ficar sabendo um pouco da vida do par de amigos da mesa ao lado – a preocupação com um terceiro amigo, que não consegue pagar a mensalidade da faculdade do filho; a pretensão de fazer um doutorado e por aí vai. E quem ouve música no meio da multidão também ‘sem querer’ acaba ouvindo ruídos das pessoas e do mundo ao seu redor. As músicas ganham adicionais mundanos. Ainda assim, para quem passa ou observa, o que aquela pessoa ouve continua a ser um mistério.

Rádio Portátil

Saiba mais:
A maneira como regulamos o espaço – e assim criamos distâncias e proximidades físicas– é uma conhecida chave para a compreensão do funcionamento da cultura e do modo de vida dos animais. Ao mesmo tempo, o espaço é uma dimensão fundante das interações sociais – e nos conforma, portanto. O assunto foi bem explorado por pesquisadores da comunicação, da antropologia e da psicologia social, metaforicamente reunidos no que se costuma chamar de Colégio Invisível, ou Escola de Palo Alto. São importantes aí as obras do canadense Erving Goffman e do estadunidense Edward T. Hall.

- GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 8 ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
- HALL, Edward T.. A dimensão oculta. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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A música anda mais animada que os reclames

Postado dia 15 de agosto de 2008

Cometi dois erros nesta semana:

1 - Passei alguns minutos em frente à TV ligada, o que não fazia há certo tempo e deixei na MTV. Pude conferir a estréia do videoclipe dirigido por Marcos Mion e um comparsa, para um cara chamado Cabal. O nome da música é Cinderela. Se você perdeu, é possível conferir no endereço… Deixa pra lá. O cantor de rap (um outro estilo de rap, claro) ainda revelou que é o único músico a lançar gratuitamente na web uma canção nova a cada semana. Emocionante.

2 – No mesmo dia, dei ouvidos a um daqueles reclames chorosos manjadíssimos e anacrônicos de que a crítica musical feita por aqui é muito ruim e que não reconhece os “verdadeiros talentosâ€, em geral trancafiados em universidades tocando MPB “de vanguarda†entre uma aula sofisticada e outra e que, mesmo tendo pavor declarado de rock e música pop, aguardam secretamente o dia em que a MTV vai descobri-los e aí então fazer justiça aos ouvidos carentes de boas letras e músicas pensadas nesse país vendido.

Disso tirei duas apressadas conclusões.

a) enquanto uns esperam sentados em um banquinho pela MTV, outros vão lá e fazem seus videoclipes, mesmo que seja em cima da música de alguém. Saiu ontem a relação dos quatro vídeos de animação selecionados pelo Radiohead para faixas do álbum In Rainbows (http://www.radiohead.com/). Ainda no ramo da animação, vale conferir o novo clipe do Portishead, para a canção The Rip, em exibição na mesma MTV. Chuva de pessoas que viram asa delta. Convenhamos: não mostrar a cara dos músicos da banda seria uma sacada para vários outros grupos em seus clipes maquiados, tristonhos, caros, previsíveis, datados e dispensáveis.

 

Videoclipe da música The Rip, clica aí:
http://www.youtube.com/watch?v=MPJJSCFdVd0

b) estar fora da mídia nunca foi tão incompatível com qualidade artística na música popular. A tese é longa, mas apenas sinaliza que não é de hoje que artistas se reinventam também lidando com o espaço midiático. Daí que seja diferente falar de música em um momento em que a segmentação do consumo não é necessariamente pautada apenas pela condição de acesso (como na época de discos importados ou quando se esperava horas para ver o artista favorito num programa também preferido de TV).

Melhor por enquanto conferir como, há mais de duas décadas, grupos pop brasileiros tentavam brincar com a necessidade de aparecer na TV. Duas divertidas aparições de Titãs e Ultraje na telinha.

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Ser novo pra mim é algo velho: Ney Matogrosso, pop aos 67

Postado dia 8 de agosto de 2008

Ney Matogrosso - divulgação

Ao que parece, não teve banda na rua. Nem rendeu capas coloridas de revistas e homenagens sinceras de jornal. O apresentador de TV não prestou reverência naquela sexta-feira por isso. Os comentaristas esportivos continuaram a enovelar suas intermináveis falas sobre o último jogo. Aqui na rua, o homem amanheceu no mesmo lugar de sempre, no chão, enrolado em um cobertor improvisado. No espaço em que, durante o dia, serve-se sanduíche árabe. E as pessoas continuaram a passar naquele dia…

Menos uma. Talvez seja o tempo que passe diante dela (e até se curve) e não o contrário. O menino Ney de Souza Pereira nasceu em 1º de agosto, na cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. O cantor Ney Matogrosso completou 67 anos na última sexta-feira.

“Que tipo de música ele canta? É sertanejo?â€, perguntou a informante de um shopping center a alguém que pedia informações sobre a venda de ingressos para o mais recente show de Ney. A turnê de Inclassificáveis aterrissa hoje na capital paulista e se estende pelo sábado e pelo domingo. No final de julho, a produção decidiu ampliar os espetáculos também para os dias 15 e 16 de agosto. Quando passou por Curitiba, em abril, a uma semana do evento os ingressos já estavam praticamente esgotados.

Realmente, ainda não foi possível enquadrar (ou enjaular) o singular trabalho de um dos principais intérpretes da música brasileira. Mais de 35 anos de carreira, 32 discos gravados e a participação na banda/experiência estética Secos e Molhados, basilar ao rock feito no Brasil e à música popular, visita indispensável tanto em áudio quanto em vídeo – de fazer a música jovem atual parecer coisa da vovó de tão bem comportada e auto-piedosa.

Talvez por isso soe provocativo Inclassificáveis ser um disco e um show de música pop. Aliás, o trabalho foi antes feito no palco e depois gravado em estúdio. Ney Matogrosso ocupa justamente (e com maestria) o desolado terreno da música pop rock jovem… Sem ficar devendo nada em irreverência, humor, transgressão, letras, lucidez, ritmo, insinuação, boa escolha de repertório e banda. Dado o já conhecido domínio de palco do cantor (de fazer inveja a muito garotão abajur da vida), o show revela-se um poderoso discurso de sobrevivência, entrega (festiva) e reverência ao tempo.

Dos primeiros gestos contidos de “O tempo não pára†e “Mal necessário†ao desfile liberto pela platéia com “Pro dia nascer felizâ€, passando pela singela declaração de “Um pouco de calorâ€, há espaço e tempo para surgirem referências mais ou menos intuitivas ao universo pop, de “Na cama com Madonna†a David Bowie numa tradução latino-americana, este último seu contemporâneo na tônica andrógina setentista do personagem Ziggy Stardust. E assim costuram-se composições de Cazuza, Caetano Veloso, Itamar Assunção, Arnaldo Antunes, Dan Nakanawa, Alice Ruiz, Jorge Drexler, Chico Buarque, entre outros. Música pop capaz de “reviver a cada clamor de amor e sexoâ€.

Veja mais:
Ney Matogrosso fala do show “Inclassificáveis”
http://musica.uol.com.br/ultnot/2008/04/08/ult89u8902.jhtm

25 anos do Fantástico - Reportagem sobre Secos e Molhados (1974)

 Rock in Rio, 1985.

Secos e Molhados, 1973.

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O povo contra Neil Young contra a guerra

Postado dia 30 de julho de 2008

O canadense Neil Young colocou na semana passada novamente a música no centro de um tiroteio de opiniões cortantes numa terra de ninguém também conhecida como rock’n’roll. Em 2006, o guerrilheiro das boas guitarras recrutou os velhos comparsas Crosby, Stills e Nash para uma turnê após o lançamento de seu álbum Living With War (cujas iniciais LWW parodiam a logo da CNN em videoclipe). O disco posiciona-se devida e expansivamente contra a invasão do Iraque pelas tropas comandadas por G. W. Bush.

Já vimos esse(s) filme(s) antes. Crosby, Stills, Nasch & Young também levantaram a bandeira contra a guerra do Vietnã, há mais de três décadas. Tanto é que o nome da nova produção que chegou aos cinemas (EUA) no dia 25 de julho é “CSNY: Déjà vu†– referência simultânea ao indispensável disco de 1970 (em boa parte presente no repertório da turnê – boas cenas podem ser encontradas no Youtube).

O documentário é a quinta incursão de Neil Young no campo audiovisual e flagra o posicionamento de fãs a favor e contra a postura política anti-Bush da banda nos shows pelos Estados Unidos. Pelo trailer do filme, reportagens e entrevistas com o músico, percebe-se o aparecimento de um fenômeno no mínimo sugestivo para pensarmos as relações com a música: pessoas que adoram as músicas de CSNY vão aos shows e se revoltam com o posicionamento político da banda (contra a guerra no Iraque, o aquecimento global e pelo impeachment do presidente Bush, como pede literalmente uma canção que aflora os nervos da platéia mais conservadora em Atlanta, por exemplo).

Enquanto alguns mostram o dedo médio em direção ao palco ou vão embora do show, outros, é claro, se empolgam e se emocionam com a honestidade e a coragem da banda. Afinal, os artistas em questão estão nessa de bom e velho rock’n’roll há mais de 40 anos. Neil Young está lá pela casa dos 50 discos (sozinho, com os camaradas da Crazy Horse, no Buffallo Springfield, ou no CSNY). Tudo isso aos 62 anos, com uma reputação acima da média, que o coloca ao lado de poucos e em frente a uma platéia… dividida.

Estranho fenômeno esse de voltar-se contra um músico respeitado e admirado pelo fato de ele tomar partido (e, convenhamos, o fez há um bom tempo e não depois do aneurisma…). Um trabalho com longevidade e de qualidade consegue colocar em uma mesma platéia pessoas (e gerações) de matizes políticos e partidários opostos. Que relação é essa dos ‘contras’ com o músico? Não saberiam eles do posicionamento coerente e declarado do compositor, guitarrista e cineasta, ao longo de décadas? Foram pegos de surpresa? Ou será que a conexão Vietnã-Iraque não é tão perfeita assim? Questões que ressoam enquanto aguardamos o filme por aqui. Por enquanto, vale dizer que em julho deste ano o posicionamento de um músico ‘das antigas’ no palco e nas telas voltou a ter importância pública e a gerar reações – o que é digno de nota quando a ordem do politicamente correto é não tomar partido algum.

Caminhos tortuosos levam a Tim Buckley

Postado dia 18 de julho de 2008

Radiohead e Coldplay têm mais em comum do que a posição de destaque que ocupam no cenário musical e a expectativa que geram sobre suas novas produções. Jeff Buckley é uma referência admitida tanto por Thom Yorke quanto por Chris Martin. “Tentei imitar o estilo vocal dele. Ele tinha acabado de morrer quando eu descobri seus discos, então há esta mística: quem é esse morto angelical, tocando essas músicas complicadas e cantando como uma menina? Se ele estivesse vivo, seria um superstar hoje em diaâ€, declarou o vocalista do Coldplay em entrevista a Rolling Stone. Jeff morreu afogado aos 30 anos, em maio de 1997. Lançou em 1994 o álbum Grace, que se tornou clássico entre músicos e críticos. Fica perceptível ali a ligação musical de Jeff com seu pai. E infelizmente as ligações não cessam por aí.

O músico norte-americano Tim Buckley morreu ainda mais jovem, aos 28 anos, em 1975, por overdose de heroína. Aos 20 anos, seu segundo LP tinha tudo para torná-lo um astro, assinala o crítico Manish Agarwal no compêndio 1001 Discos para ouvir antes de morrer (editora Sextante). Goodbye and Hello, de 1967, no entanto, não passou do 171° lugar na parada americana. Mas seria injusto (e um desperdício) não ouvir Tim Buckley como disco – e não apenas a partir de faixas isoladas, podcasts e coisas da moda. Pois é no formato álbum que ele decide começar uma ruptura com o folk-rock de seu trabalho de estréia e nos permite uma escuta melhor. Aponta-se que ele foi influenciado por Sgt. Pepper’s, dos Beatles, o que não é de se duvidar.

O LP foi gravado em junho, em Los Angeles, na Califórnia, pela Elektra – que o recrutou em 1966 junto a outras bandas de L.A., como The Doors e Love. Aliás, a safra de bons discos em 1967 daqueles lados é algo ainda a ser estudado. Metade das canções é assinada em parceria com Larry Beckett e a outra é exclusiva de Buckley. Goodbye and Hello acena tanto para o gênero de formação de Tim, o folk, quanto para a nova proposta em pauta, montada ao longo do disco. Os traços, quando existem, são de um folk não tradicional, mas eletrificado, calcado sobretudo em violão, piano, bateria, guitarra e baixo. Os três últimos, aliás, pegam na enxada e trabalham o disco inteiro, o que nos sugere o instigante clima de movimentação pertinente ao cantor. Prova disso e uma das partes mais saborosas é a ‘elasticidade vocal’ de Burckley. A voz doce e suave por vezes dá espaço a uma entonação grave e marcial. Mas aí é que está: para conferir as variações vocais é preciso ouvir o álbum todo. E os 42 minutos valem a pena! Outra movimentação se dá em relação aos gêneros musicais, que demarcam o ecletismo do autor (o que talvez justifique sua paradoxal resistência ao tempo). Ouvindo outros discos de Tim, percebe-se que em Goodbye and Hello estamos diante de um artista em desenvolvimento (aspecto, aliás, desejável a todo bom artista).

O disco começa com explosões de guerra na canção de protesto No man can find the war, que segue numa linha (elétrica) folk, com baixo, bateria, violão e piano. “Is the war across the sea? Is the war behind the sky? Have you each and all gone blind? Is the war inside your mind?â€. Para quebrar, a faixa 2 é uma valsa em clima circense que termina com o som incidental de uma banda marcial. Aliás, dois ‘temas’ iniciais (guerra e circo) que também aparecem nos discos do Doors na mesma época.

A terceira música, Pleasant Street, coloca em cena um rock mais vigoroso e ‘classudo’, calcado em acordes descendentes iniciais. “Down… down… down… downâ€. E o primeiro ponto alto do disco aparece aí na explosão vocal para o refrão, com destaque para os trabalhos do guitarrista Lee Underwood. A seguir, Hallucionations pisa no freio e põe os ‘barulhinhos’ para funcionar. Slide guitar e percussão como se fossem ecos do além. A melodia da voz é marcada pelo violão, aí sim dentro de algo mais próximo do folk. De resto, fica nos terrenos da psicodelia. Até aqui, quatro músicas em quatro estilos diferentes, mas que se complementam ao longo do álbum.

 

Violões enérgicos e batuques dão o ritmo agora e a primeira metade do disco acaba em grande estilo. O seis minutos de I never asked to be your mountain dão a impressão de que o jovem Tim chamou o bairro todo para tocar percussão. É o flerte mais dançante do disco, sem perder o tom de tensão que agoniza até o final da obra. Ok, provalvelmente continua depois do final… “I can’t swim your waters / And you can’t walk my landsâ€. A música trata da relação complicada com a mulher e o filho Jeff, de quem estava afastado, segundo o crítico Manish Agarwal – “em 1991, Jeff cantou essa música num show em homenagem ao paiâ€.

Once I was é uma canção mais pop, triste, na base de violão, gaita e um vocal que, aqui sim, definitivamente leva a imaginar outro ser dos territórios agonizantes. O modo como Buckey alcança as partes mais agudas lembra Thom Yorke, do Radiohead (curiosa época essa em que é o presente que ecoa no passado…). A impressão é de que se canta mais inspirando ar do que soltando em tais trechos. Em resumo, sufocante. E o que é melhor: a peça seria ‘tocável’ em qualquer rádio FM por aí, sem soar datada.

Para não ficar previsível, a sétima faixa não troca de estilo. Phantamasgoria in two aprofunda e aperfeiçoa o que começou em Once I was, sem perder laços insondáveis com o som da turma de Yorke. Voz sensível nos agudos acompanhada por uma levada mais rápida de suave bateria e guitarra clean com delay solando ao fundo o tempo todo. “If you tell me of all the pain you’ve had / I’ll never smile againâ€. Grata surpresa do disco, talvez pela atualidade, talvez pela economia sonora. Novamente: tocaria em qualquer FM ‘antenada’ sem soar nostalgia pura, revisionismo hippie ou coisa parecida.

A faixa título, penúltima do álbum, é a mais longa, com oito minutos e 45 segundos. Fica mais perto de uma peça do que de uma canção, pela quantidade de variações rítmicas e pela investida sinfônica, com metais e cordas. Faixa em que o menino folk não apenas diz olá como dá um caloroso abraço no rock progressivo e senta para tomar uma Gengibirra.

O encerramento fica por conta da delicada balada folk Morning Glory. O coro de vozes ao fundo ajuda a contar a bela história… de despedida. Burckley faria outros discos, mas já não seria o jovem Tim de Goodbye and Hello. Impossível para ele ser sempre o mesmo.


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Rock a céu aberto outra vez

Postado dia 11 de julho de 2008

Tudo indica que o rock conta as horas para mais uma mudança nos modos de fazer e ouvir música. O modelo de indústria que consagrou o disco como elemento artístico primordial na relação com o público completa 40 anos e já não esconde as rugas de preocupação. O estúdio de gravação - como um verdadeiro laboratório criativo (sonoro e conceitual) - deixou de ser um lugar seguro e sustentável até mesmo para grandes músicos. Caem algumas paredes do estúdio e agora a tendência é do artista se reinventar em público e ao vivo.

   Sgt. Pepper’s…, dos Beatles, consolida em 1967 o papel central do disco no rock contemporâneo.  

No post anterior visualizamos uma possível relação entre a queda na venda de CDs e a ampliação na agenda de shows. O fenômeno em alguns casos realmente se traduz em produções mecânicas, repetitivas, como lembrou um dos leitores/comentaristas. É o caso do mercado de DVDs (sempre) ‘ao vivo’ no setor sertanejo e axé que tocam em bares e restaurantes. Mas aí há que se lembrar que o formato ‘álbum’ em tais segmentos nunca foi uma referência tão forte quanto no rock e no pop mundial. Nesses últimos gêneros, os compartilhamentos digitais de música pela rede têm gerado revisão da soberania do disco ou do registro no processo e alterado a prática de espetáculos.

O novo trabalho do cantor Ney Matogrosso, por exemplo, foi primeiro experimentado no palco e depois gravado em estúdio. A atual agenda de “Inclassificáveis†conta com 55 apresentações de janeiro a outubro (sem contar uma turnê pela Europa a confirmar). Até o fim de junho, foram 33 shows em nove estados. Matogrosso fez show em abril em Curitiba e a produção prometeu repetir a dose em julho (mas a data ainda não consta na agenda). Arnaldo Antunes, por sua vez, fez uma ‘temporada’ de quatro shows por aqui em junho. O novo trabalho, curiosamente, chama-se “Ao vivo no estúdio†e, talvez, seja sintomático do mesmo fenômeno. Valoriza-se a economia de recursos (sequer existe baterista) e o desempenho é melhor ao vivo do que no disco. Os dois cantores têm, ainda, em comum o fato de estarem muito bem acompanhados (em suas turnês) - a banda vale o bilhete. A turnê conjunta de Paralamas e Titãs desde outubro do ano passado também seria outro indicador das variações. Já a banda escocesa Nazareth fez turnê mundial que incluiu 13 cidades brasileiras, entre elas Maringá, Ponta Grossa, Cascavel, Londrina, Foz, Tubarão e Joinville (de 14 a 31 de maio).

O pesquisador Eduardo Vicente, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, assinala que a estratégia de priorização do show (em detrimento do disco, mediante a “morte da indústria fonográficaâ€) depende do poderio dos artistas no mercado. “Não nego a efetividade da estratégia nem a legitimidade de seu uso. Apenas lembro que ela não serve a todos os artistas, mas apenas aos que realizam shows capazes de atrair um significativo público pagante e que possuem a capacidade de operar com todas as variáveis econômicas e logísticas envolvidas nessa atividade. Entendo, por isso, que ela tende a favorecer bandas em lugar de artistas individuais e empresas ‘verticalmente integradas’ (…) em detrimento de indies tradicionaisâ€.

Vicente atenta para o fato de a que disponibilização digital de músicas e a utilização do registro apenas como ‘chamariz’ para o show podem questionar justamente a autonomia do disco no processo criativo, fixada no rock nos anos 60. A conquista adquire o nível industrial com os Bealtes, que inauguram um novo modelo de consumo musical, a partir da idéia de ‘álbum’ e não mais apenas de compactos. O pesquisador lembra que os Beatles fizeram Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, LP de 1967, com o pressuposto de que não teriam que o executar ao vivo. O que abriu caminho para experimentações e inovações. O disco deixa de ser rigorosamente a reprodução da performance ao vivo. “Assim, foram utilizados recursos de produção até então praticamente inéditos, como a colagem de trechos de fitas gravadas, a sobreposição de gravações e a técnica de multicanais, que resultaram em registros que não poderiam – com os recursos da época – ser reproduzidos num show. Além disso, Sgt Pepper’s talvez possa ser considerado também o primeiro disco conceitual já produzido, uma vez que existia uma narrativa de fundo interligando suas faixasâ€, explica.

Outro nome memorável que se refugia em estúdio na mesma época é Brian Wilson, mentor dos Beach Boys. O resultado é o disco Pet Sounds, de 1966, que também redesenha o protocolo de comunicação da música – as canções fazem sentido coerentemente organizadas dentro de um álbum completo. A resposta dos Beatles vem, é claro, no forma de um disco conceitual e não apenas em canções isoladas. A diferença é que a obra-prima dos Beach Boys não foi promovida pela gravadora Capitol, sendo tardiamente recuperado. De qualquer forma, tem-se aí a consagração do trabalho em estúdio e conseqüente produção de discos como o laboratório por excelência da criação e transformação do rock.
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E quem foi responsável por isso no Brasil? A questão é polêmica e vale, talvez, outro post.