Postado dia 1 de dezembro de 2008
Meu nome é Klon, eu sou um cyborg. Sempre acreditei na Ciência e nos avanços tecnológicos desenvolvidos pelo homem. Por isso me tornei um cyborg. Por isso permiti que cientistas implantassem em mim, a tÃtulo de experiência, chips de conteúdo e conhecimento, que me tornaram uma criatura única no mundo que é metade homem, metade máquin
Ao longo de uma década implantei em média 30 ou 50 chips por ano, em todo o meu corpo. Não é ruim e nem perigoso. E quando você pega o gosto pela coisa, acredite, não quer parar mais. É como o cara que começa com uma tatoo e, quando vê, não tem um centÃmetro do corpo que não esteja coberto com algum desenho esverdeado.
Eu implantei em minhas mãos chips que me permitem apagar e acender luzes. Me permitem abrir portões automáticos com um simples movimento e me permitem mover cadeiras-de-rodas motorizadas, ligar e desligar aparelhos eletrônicos, mover peças de ferro, mover ponteiros de relógios, dar partidas em carros, vasculhar agendas eletrônicas, deletar músicas de i-pods e fazer mais umas 10 milhões de coisas que nem sei ao certo, sem ao menos tocar nos objetos. Só com um simples estalo de dedos.
Permiti que implantassem em meu cérebro chips que contém a gramática de todas as lÃnguas do mundo, inclusive as extintas. Chips com conteúdos de geografia, história, biologia, medicina, direito, preceitos religiosos, filosofia, zoologia, psicanálise, geologia, eletrônica, astrologia, arquitetura, fÃsica, quÃmica, engenharia, tipografia. Eu posso lhe fazer uma neurocirurgia agora, se você quiser.
Imputei chips em meu cérebro que detém o conteúdo de toda a literatura do mundo. Por exemplo, Shakespeare em inglês, espanhol, português, bantu, esperanto, aramaico. Eu posso recitar Shakespeare na lÃngua que você pensar. Toda a literatura brasileira, claro, ficou num chip à parte da literatura mundial, porque me interessou o fato de eu poder atualizá-lo com os tÃtulos recém-lançados, simplesmente acoplando um pen drive em minha bunda e fazendo o download.
Eu tenho um chip que me permite entender a linguagem dos sinais e matemática. Tenho um chip só de piadas. Tem todas, de português, de veado, de loira, de gaúcho e tem piadas sujas. Sei piadas de todos os povos, desde o humor judeu até o humor alemão, que se constitui de mais ou menos umas cinco piadas fracas.
Eu implantei chips que permitem me comunicar com golfinhos, macacos, pássaros. Posso encantar cavalos. Posso encantar baleias. Encantar serpentes. Implantei chips com informações sobre agricultura. Sei como se plantam rabanetes, sei como arar a terra, sei como descascar mandioca. Tem um chip na região do meu pescoço só com receitas culinárias, então eu poderei plantar rabanetes e prepará-los como o melhor chef jamais prepararia.
Implantei, em meus olhos, chips que me permitem ver o mundo de várias cores diferentes. Efeitos psicodélicos, mundo em preto e branco, olhar de iguana, visão de raio-x, tudo. Só falta soltar lasers. Tenho chip que me permite pintar como Van Gogh, desenhar como Rembrandt, e pensar como Picasso. Este último, é o chip da criatividade, que armazena zilhões de idéias diferentes para roteiros de cinema, cartuns, literatura. Uma combinação infinita de possibilidades. Precisam ver o solo de guitarra que tirei, tocando como Hendrix, pensando como Bird e compondo como Mozart. Alguém seria capaz disso sem os milagres da Ciência Tecnológica? Não, ninguém seria capaz disso.
Quero ver o primeiro filme do John Ford ou um episódio perdido de Columbo? Basta fechar os olhos que o chip videoteca passa num instante em minha cabeça. Dublado, porque eu só vejo filmes dublados!
Tenho chips que me fazem correr como Carl Lewis, nadar como Michael Phelps, jogar como Roger Federer, pilotar como Michael Schumacher, criar jogadas como Pelé. Sem suar, pois tenho um chip que inibe e trata o suor, transformando-o novamente em lÃquido potável e proteÃnas, regando as fibras dos meus músculos.
Eu implantei chips que transformam a cor da minha urina. Impantei chips que transformam meus flatos em notas musicais. Na minha bunda têm chips desodorizantes. Chips que esculpem meus excrementos, em formato de cavalinho, girafa, o que eu quiser. Unido ao chip da memória fotográfica, meu ânus esculpiu o retrato de meu pai em fezes, que eu dei de presente a ele, no dia de seu aniversário.
No meu pênis, chips que mantém ereções por tempo indeterminado. Mas o que eu mais gostei foi o chip bombinha, que aumentou em 4 centÃmetros minha genitália. Tenho chips com imagens de garotas nuas, todas as edições da Playboy. É a maior revolução já feita na masturbação desde o cara que descobriu a famosa técnica de deixar a mão formigando.
Eu sou Klon o cyborg, o homem-máquina, o ser que mais se aproximou de Deus, desde Funnes, o memorioso. Bem, agora tenho que ir. Se meu chefe me pega usando o computador para navegar na internet, ele vai ficar uma fera.
Alberto Benett
Postado dia 12 de novembro de 2008

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O terceiro dos sete filhos do Capitão Roberto Esperto virava lobisomem.
Em toda noite de lua cheia, a testa e os ombros de Juvenaldo eram tomados por pelos, cresciam-lhe os dentes, esticavam as unhas e ele se punha a uivar, sem ao menos se importar com as eventuais visitas para o jantar – cada vez mais raras, diga-se de passagem.
Para conter a desgraça de ser conhecido como “O Pai do Lobisomem†(o que de fato já começara a acontecer) e evitar maior constrangimento social para si e para a famÃlia, o Capitão Esperto resolveu enviar o filho para um Monstreiro Beneditino.
Ao contrário das expectativas, a adaptação de Juvenaldo não foi das mais dolorosas. Mesmo de forma traiçoeira, ele parecia ter ouvido a voz de Deus. Talvez por causa da postura liberal dos Beneditinos de lá, tão receptivos que viviam de braços dados com o Rabino Golem.
A tranqüilidade espiritual não durou muito, infelizmente. No dia da Benção de Prevenção à Polidactilia, Juvenaldo saiu do claustro para tocar as mãos dos fiéis. Entre eles estava uma noviça, Maria, a Freira Sem Cabeça. O pescoço serelepe daquela noivinha de Cristo fez com que Juvenaldo prendesse a respiração. Naquela noite, já uivava para a lua, sôfrego de amor.
Não escapou a Monsenhor Boitatá o clima romântico que se estabeleceu entre os dois. Também não era a primeira vez que Maria se metia em encrencas. No Convento Sibilante, as colegas descreviam a freira como “desmioladaâ€. Elas cantavam:
- Como resolver um problema como Maria?/
Já que seu caso é mais que cabeça vazia?
Sem demora, Juvenaldo e Maria promoviam encontros secretos no cemitério que separava suas sagradas residências. A discrição não durou, já que o menino passou a deixar rastros de pelos por entre as covas.
Monsenhor Boitatá tomou uma decisão dura, mas coerente com suas obrigações religiosas. Transferiu Juvenaldo para o Monstreiro da Ressurreição Pe. Romero, onde receberia cuidados do temido abade Zumbi. Entre dentes, os noviços Beneditinos compartilhavam a dolorosa expectativa: “O abade vai comer a cabeça dele!â€
Mas, no caminho, Juvenaldo viu um coelho e fugiu para o mato.
Postado dia 3 de novembro de 2008
01- Elvis Presley - Ele é o Rei do Rock, o Rei das celebridades mortas que mais faturam no mundo daqui e do além e, claro, é o Rei no quesito costeletas também. O primeiro lugar só podia ser Dele!
02- Emerson Fittipaldi - O bicampeão do mundo de Fórmula 1 e campeão da Fórmula Indy, Emo é a nossa primeira referência quando se fala em corrida de carros e…costeletas. Nas pistas era o primeiro, mas aqui, ficou em segundo lugar com as costeletas mais marcantes do Brasil.
03- Paul Breitner - Uma das maiores lendas do futebol alemão, jogou as Copas do Mundo de 74, 78 e 82. Tinha um estilo que viria a ser chamado de “moderno”, aliando força fÃsica e técnica. E, claro, uma aparência medonha, com costeletas sensacionais, para intimidar os adversários.
04 - Fabio Elias - As costeletas mais famosas do rock brasileiro. Não tem pra ninguém, é do vocalista da Relespública o quarto lugar no quesito “costeletas mais cool” da história.
05 - Claudia Ohana - Ela só tem UMA costeleta, mas convenhamos…que costeleta!!!
Agora segue umas tiras para descontrair…
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C ya, fellas!!!! (Benett)
Postado dia 26 de outubro de 2008
Como um bom fornecedor de tiras que sou, vou oferecer mais um pouco do material para vocês experimentarem, totalmente de graça. Depois me digam o que acharam. Se quiserem mais, tem pra vender ali naquela ruazinha do Bife Sujo.
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See ya, buddies!!! Se forem a fim de conhecer mais trampos do anormal que desenha estas tiras aà de cima, pense bem antes de ir nestes endereços:
http://blogdobenett.blog.uol.com.br
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/salmonelas
Postado dia 19 de outubro de 2008
Hello big boobs, tiny tits, mothafuckers and cocksuckers em geral!!!
É, faz tempo que eu estava devendo umas tiras por aqui. Queria escrever algo engraçado, mas não me ocorre nada no momento. Bem, eu podia contar umas piadas, ao invés de tentar inventá-las. Vamos ver se me lembro de alguma. Ah, tem uma que é assim: O sujeito diz “minha esposa é um anjo”. “Sorte sua”, diz o outro. “A minha ainda está vida.
Ahn…não foi das melhores. Mas vamos esquentar isso aqui ainda. PeraÃ. O Sargento pergunta “quem foi o idiota que o mandou sair de forma?”. “Foi o tenente”, respondeu o recruta. “Detido por 10 dias por chamar o tenente de idiota”. Hmm…ouvi um grilo? Não, não. Vamos tentar essa: Um homem colocou um anúncio no jornal: Procuro esposa. Recebeu de volta milhares de mensagens: Pode ficar com a minha!!! Admitam, essa foi melhorzinha. Ow…grilos, um piado de coruja. Ei, o que é que muda de cor, anda pra trás e come criancinhas? Michael Jackson. O judeu saindo de uma boate enfiou a mão no bolso do porteiro e disse “isso é para você tomar um uÃsque”. O porteiro foi feliz conferir o presente: eram duas pedrinhas de gelo. Ok, tentei, guardem as vaias para a seleção de futebol evVamos ficar com os desenhos…(Benett)
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See ya, buddies, pals, dudes, fellas, folks and brothers em geral.
Postado dia 13 de outubro de 2008

Havia tanto tempo que Zé Canelinha estava no ramo da miséria que não tinha mais a menor idéia de qual era seu nome de batismo nem de onde veio.
Nos bons dias, as pessoas passam por ele, estirado na calçada, e jogam uma moeda grande, amarela, de 25 centavos, dentro de uma caixa esfolada de tênis Olympikus.
Nos dias ruins, que são mais freqüentes, os transeuntes olham de longe a canela em carne viva e osso esburacado, carcomida pela doença que ninguém arrisca batizar, e se amontoam na guia para evitar um contato ainda mais desagradável.
Nos dias piores, os mais remediados reclamam: “Não dá pra andar dois metros sem esbarrar num pedinte!” A boa senhora que fez este comentário estava com os nervos à flor da pele e até se sentiria culpada, se lembrasse da cena mais tarde. O dia foi difÃcil: o avião atrasou e ela precisou ficar nove - juro pra vocês! - nove horas no aeroporto esperando a conexão.
É, a vida de Zé Canelinha foi uma desgraça.
Negro, doente e dono de olhos injetados de sangue, vÃtimas constantes do frio, do pó, da conjuntivite… mas quem se importa? “Olha a cara daquele ali! Encheu os pacová de pinga!” Não, diz a amiga dada a expert: “É maconha ou cola. Dá pra ver pelos dedos.”
O pior, o pior mesmo, é nem sequer ter nome. “Zé Canelinha” pareceu melhor no dia que nosso amigo ouviu dois adolescentes falando bem de um tal de “Roque Ombro”. Soava importante. Mesmo assim, o camarada deveria ter aquele apelido por causa de costas fortes, trapézio definido, figura de atleta. Definitivamente, não era seu caso. Se fosse, ficaria melhor Zé Canelão ou Zé-Canela-de-Ferro - embora esses dois, pelo menos na crônica esportiva, também representassem algo não lá muito positivo.
Mas isso estava para acabar e Zé Canelinha não conseguia esconder certo entusiasmo.
Ele estava morrendo.
Sentia nas veias saltadas do braço, como se caroços se misturassem ao sangue e lentamente bloqueassem e depois apagassem os vasos, inutilizando-os ao ponto do esquecimento.
A garganta secava cada vez mais depressa e nenhuma água, nem quando era abundante açoite, tirava o gosto de poeira. A coisa se avolumava em sua traquéia, preenchendo as ramificações tão nitidamente que Zé Canelinha “via”, como se olhasse o esquema de um fliperama, os caminhos outrora preenchidos de ar.
O pulmão se encolhia dia após dia. Os sentidos se embaralhavam.
Zé Canelinha não tinha forças para reagir.
Melhor: ele desistiu de reagir.
Entregando-se, primeiro com medo, depois com cuidado e, por fim, com inesperada alegria, o homem passou a esperar o dia em que fecharia os olhos como o despencar mudo de uma cortina de chumbo e só abriria para ver Nosso Senhor Jesus Cristo, leve feito pluma, levantar suas pálpebras num sopro.
Todas as vezes que foi tratado como nada, como invisÃvel, por não ter documento nem nome, seriam segundos - menos! todas reunidas num milésimo de segundo! - na vida plena e esplêndida que lhe foi reservada na Eternidade.
Chegou.
No mesmo dia, ao anoitecer, o taxista do ponto na esquina resolveu espantar o cachorro que lambia o rosto desacordado. Estranhou a rÃgida imobilidade e cutucou Zé Canelinha com um galho. Depois chamou a polÃcia, pois não sabia bem de quem era a responsabilidade.
Não sabemos se o falecido tem noção de tempo, então isso pode parecer sem sentido: de qualquer modo, o corpo ficou guardado na geladeira do Instituto Médico Legal por um mês. É o prazo para que a famÃlia reclame o indigente. No caso dele, era como se fosse obrigado a esperar a próxima conexão por 720 horas.
Ninguém apareceu, como nós já esperávamos.
Na terça cinzenta que cobria o Cemitério Parque São Pedro, onde a prefeitura mantém mil covas stand-by para indigentes, o motorista do IML e os coveiros foram testemunhas do enterro de Zé Canelinha, que agora se chamaria, pra todos os efeitos legais, 174628-Pinhais.
Ninguém estava triste nem feliz. O chofer deu uma coçada na nádega esquerda e os coveiros ora saudavam, ora contestavam a “personalidade” do técnico Emerson Leão, que dispensou Carlito Tevez do Corinthians.
Ficou mais escuro, 174628-Pinhais! Só se destacam dois pedaços de dentes frontais, os únicos que sobraram, aliás. Parecem esboçar um sorriso. A libertação está muito próxima, nem teremos tempo para que o primeiro verme invasor seja recebido pelo morto; esse infelizinho não será o homenageado na dedicatória. Os vermes antigos já faziam um “trabalho entrópico”, digamos assim, e o morto é do tipo que valoriza o pessoal da casa.
A luz começa a aparecer.
Está no céu, no hall de entrada para a Eternidade.
É lindo e inexplicável. As nuvens se avolumam ao longe e aos pés dança um azul profundo. 174628-Pinhais vê o portão, grande e imponente, guardado por um anjo de rosto delicado.
Há algo brilhante além da grade e a felicidade reverbera pelo ar. Só esse soprinho minguado já é mais do que 174628-Pinhais teve a vida toda. Tem direito de querer mais? Sim, ele conclui. Mais, sempre mais, por detrás do portão o mundo é o Rio de Janeiro sem violência ou pobreza e todas as pessoas falam frases do Chico Buarque até para as operações mais simples do dia-a-dia.
174629-Pinhais cumprimenta o anjo com um aceno de cabeça, toma fôlego preenchendo o que pode no seu diminuto e empoeirado pulmão, e dá um passo decidido, outro dolorido e torto em direção ao paraÃso.
Na linha da porta, o anjo desce o braço, interrompendo a passada como se fosse uma cancela. Olha para o recém-chegado e pede:
“A identidade, por favor”.
Postado dia 28 de setembro de 2008
Ninguém sabe ao certo o passado do Inspetor Jesus nem quem é a mulher misteriosa que sempre liga quando Ele está investigando a cena do crime. O intrigante Jesus é um homem de muitos segredos. Mesmo assim, encanta a todos com Seu milagroso talento para resolver crimes quase insolúveis. “É o único Cara capaz de ressuscitar um camarada só para perguntar onde o morto estava quando foi assassinado”, admira-se o investigador Thiago.

O corpo boiava com todas as extremidades alinhadas na superfÃcie. A única farpa que destoava era o rasgo fatal no meio do peito e a estrela de sangue desenhada no uniforme cáqui. A cena enchia os olhos de beleza, é preciso admitir, a começar pelo sepulcro provisório escolhido pelo assassino: a grande barreira de corais australiana. Para completar, a vÃtima era tão célebre quanto os ornitorrincos, coalas e cangurus escondidos na arca alguns séculos antes.
“Tudo leva a crer que foi uma arraia”, explica aos solavancos o detetive Saulo, desacostumado ao intempestivo oceano PacÃfico.
“Não sei nãoâ€, duvida o detetive Tomé, segurando firme na proa. “O que não entra na minha cabeça é: porque uma arraia mataria Steve Irwin? Quer dizer, o cara já arrumou encrenca com cobras, crocodilos, aranhas… logo uma arraia! Isso não me cheira bem!â€
A conversa é interrompida pela imagem torpe percebida simultaneamente. No horizonte, uma mancha esquálida aos poucos toma forma, como uma miragem. Em poucos segundos, conseguem definÃ-Lo andando sob a água na direção ao belo e mortal cenário.
“É ele!â€, grita Saulo.
Era o Filho do Homem, como ficou conhecido na academia, quando os outros cadetes injustamente acusavam o destacado estudante de ser favorecido pelo parentesco com “gente da altaâ€.
“Inspetor Jesus!â€, alegram-se os dois – ambos legÃtimos discÃpulos dos métodos investigativos do mais internacional dos policiais.
“Eeei, rapaziada, qual é a do cadáver?â€
“Um exame preliminar diz que foi briga feia com uma arraiaâ€, começou a reportar Saulo. “Ela ferrou o cara, inspetorâ€.
“Hmm, isso dá para ver claramenteâ€, diz Jesus, de cócoras na água para enxergar melhor a chaga mortal. “Nãoâ€.
“Não?! Como não?!â€, se espantaram os jovens policiais, olhando um para o outro e depois para Jesus e depois para o morto.
“Estão vendo esse serrilhado aqui perto da ferida? Então…â€
Go down, Moses, let my people go… O ringtone do celular de Jesus interrompe a explicação.
“Alô. Eu disse para não ligar quando estou trabalhando!â€
Saulo e Tomé podiam ouvir a elevada voz feminina saindo do aparelhinho Black Mary do inspetor:
“Como vou saber o que está fazendo? Faz três dias que você tá sumido, sem dar notÃcia. Já liguei para hospital, polÃcia e até procurei nas cavernas de Cafernaum para ver se te achava…â€
“Mas…â€
“E não é a primeira vez que você some por três dias. Depois reaparece, sorridente e cheio de marcas pelas mãos, pelos pés, nas costelas…â€
“Não chore…â€
“Venha para casa, é Páscoa! Jesus, é sério, esse seu trabalho vai acabar com você. Isso não é vida!â€
Irritado – mas solidário –, o Inspetor Jesus despediu-se secamente e desligou antes que ela perguntasse onde Ele estava. Imagine o chilique!
“Onde eu estava? Ah, em verdade vos digo: não foi uma arraia que matou Steve Irwinâ€.
“!â€
“Foi um crocodilo!â€
“!!â€
“Sim, mas não um crocodilo comum. Em verdade, em verdade vos digo: foi um crocodilo vestido de arraia!â€
Nesse momento, o bote chacoalha dando um banho nos discÃpulos do inspetor Jesus. Sob o casco havia um zÃper. Mãos verdes com unhas grossas e sujas abrem o barco – que se revelou, na verdade, um disfarce. Mais um do enorme arsenal do… Mister Crocodilo!
“Muito esperto Jesus, como sempre†– o assassino portava um rifle. “Mas dessa vez não será tão fácil. Fiquei muito mais esperto desde o disfarce de cobra no deserto. Prepare-se para rezar!â€
“Ah, você acha Jesus esperto?â€, devolveu Jesus. “E pensa que deu cabo no pobre Steve Irwin? Pois tenho uma surpresa para você. Há alguém aqui nesse oceano bem mais esperto que Jesus. E não é vocêâ€.
E Aquele que pensávamos ser Jesus abriu um zÃper maquiado como cicatriz de chicotada, nas costas, e revelou o mais famoso sedutor de répteis no mundo: Steve Irwin!
“Mas… como? Quem é o cara que matei com um ferrão de arraia?â€
“Aquele é um médio volante da seleção sueca de futebol. Quem ri por último, agora, Dr. Crocodilo?â€
Catampum!
Dr. Crocodilo acerta Steve Irwin bem no meio do peito, dando fim à audácia do apresentador de televisão para sempre.
“Rá rá rá rá rá rá!†ecoou pelo PacÃfico.
“Não tão rápido, Doutor Crocodilo!†Era Saulo. Ou melhor, Jesus, que até ali fingia ser Saulo. Com sua vara de bambu, Jesus tirou a arma das garras do réptil mau. “Ordeno que volte para as profundezas!†(comando que revelou pouca intimidade do Filho do Criador com zoologia ou ironia impenetrável ou parte de uma parábola convenientemente aberta a milhões de interpretações).
“Shit!â€, praguejou o assassino, que se transformou num boto e sumiu num redemoinho de pó.
“E quanto a você, Tomé, revele sua verdadeira identidade!â€
O nariz caucasiano de Tomé, que flutuava ali perto, desmanchou como cera e em seu lugar apareceu um focinho de porco que sustentava aros redondos para olhos cândidos e provocadores.
“Ordeno que me diga seu nome!â€, repetiu o bÃblico Jesus.
“Legião, porque somos muitosâ€, falou Tomé, agora com uma voz que parecia um disco do Sepultura rodado ao contrário (que é exatamente igual ao rodado na rotação certa).
Como Jesus desconfiava. O criminoso era um velho conhecido, mas que agora praticava suas maldades num campo diferente.
“Revele sua face, Renato Russo!â€
E o resto da metamorfose se fez, com direito a estampa de Joy Divison na camiseta.
O inspetor Jesus já havia pedido a prisão preventiva de Russo mais de uma vez; sua fé no sistema judiciário caiu completamente quando o vocalista foi solto sob fiança mesmo depois de ter gravado Música para Acampamentos. “Por que me abandonaste?â€, chegou a gritar para o alto, numa cena “demasiadamente afetadaâ€, segundo comentaristas da época.
“Você não me engana, Jesusâ€, vociferou Renato Russo.
“Você está bêbado, se acalmeâ€.
“Bêbado? Quem estava bêbado naquela festa em Canaã, quem?â€
“O que tem naquela festa?â€
“Não se faça de Lázaro sem Braço pra cima de mim. Me explique o lance dos peixes! Do vinho!â€
“Não sei do que você está falandoâ€.
“De repente, você fez um peixe virar uns cem peixes!â€
“Pelo jeito você é que estava bêbado naquela festaâ€.
“Ouça o que eu estou te dizendo, Galileu filho de uma virgem…â€
“Olha como fala de minha mãe! Eu já agüentei demais!â€
“Não importa quanto tempo demore, eu vou te desmascarar. Tua hora vai chegar, judeuzinhoâ€.
Cansado de tanto blábláblá, Jesus pegou sua vara de bambu e expulsou Russo da grande barreira de corais australiana.
Serviço concluÃdo, retomou o celular dos trapos de sua cintura e fez a última ligação do domingo.
“Mãe, prepare aquele pão ázimo que só você sabe fazer. Eu estou voltando!â€
No próximo capÃtulo: o ex-atacante de futebol Christo Stoichkov e o artista plástico Christo ajudam Jesus a prender um ladrão internacional de jóias na Bulgária. Não perca: “Um ladrão entre dois Christosâ€.
Comentários da crÃtica depois do último episódio da primeira temporada:
“Eu achei muito ousado matar logo o protagonista nas últimas cenas. Mas o seriado foi um sucesso e as redes de TV não perdem a oportunidade de lucrar no ano seguinte. Aposto com quem quiser que Jesus ressuscita na próxima temporadaâ€. Mathias Salame – WKO R Repórter.
“Algumas pontas soltas, como a história envolvendo Maria Madalena e o mistério sobre a infância do Inspetor, são indicativos certos de uma continuação. Mas a esse custo por episódio, desconfio que Jesus só volte daqui a mil anosâ€. Christopher Berinjelus – Imbituva Reporter.
Postado dia 26 de setembro de 2008
Quem fala aqui é o Victor: na última semana, um texto do Benett sobre o show dos Scorpions em Ponta Grossa causou alguma comoção entre os leitores da Gazeta do Povo. Algumas pessoas ficaram realmente irritadas. Eu morri de inveja. Não é sempre que o jornalismo é recebido sem bocejos. E também fiquei com dor de cotovelo por causa da sequência de sacadas sensacionais. Vamos fingir que o texto leva às imagens. Ainda tenho algo a dizer sobre quem se ofendeu com o gonzo produzido pelo Benett: para mim, pelo menos, a sensação é até de afeto pelos fãs verdadeiros da banda.

Scorpions e os exércitos da noite
O Morro dos ventos uivantes
Ponta Grossa é uma cidade em que venta muito. Tem todo o tipo de vento, os alÃsios, as brisas, os vendavais e, claro, os ventos da mudança. Foram esses que trouxeram à cidade uma banda hard-rock de Hannover chamada Scorpions, fundada em 1972 por cinco caras que pareciam o resultado do cruzamento entre a Joni Mitchell e o Johnny Winter, e seus principais hits se chamam Still Loving You e, vejam só!, Wind of Change. Vocês devem conhecê-los das coletâneas de música estilo Love Metal. Mas agora os caras estão bem diferentes, mais para o cruzamento entre Iggy Pop e uma caixa de uvas-passa.
Os que pagaram até 70 reais
Foi numa noite de vento e chuvas esparsas, num lugar chamado Centro de Eventos - onde rola a München Fest- que os Scorpions tocariam. Esse clima frio e chuvoso, num lugar mal iluminado, eu conhecia bem: é a extensão do melancólico bairro onde morei, na década em que Klaus Meine e Rudolf Schenker eram novidade.
A honestidade dos fãs chega a ser comovente. Você vê em seus olhos a sinceridade com que eles gostam daqueles caras que estão em cima do palco. Não importa que Still Lovin You dê “caimbra nas bolasâ€, como disse um dos muitos fãs com quem conversei naquela noite. Afinal, eles eram os clássicos fãs de rock’n’roll – para quem um grupo de rock significa alguma coisa real. Oposto dos que vi num show do White Stripes: quando o vermelho e o branco caÃram de moda, eles abandonaram o duo por outro grupo hype do momento.
Os fãs dos Scorpions pagaram até 70 paus para estarem ali e sabiam que estar ali agora valeria cada centavo daquele dinheiro.
Haviam muitos jovens, eram a maioria, talvez. Uma famÃlia com a bandeira do Paraguai nas costas, garotos com escorpiões de isopor enormes nas mãos, garotas com tiaras de chifrinhos cintilantes e uma mulher com um bebê no colo, embalando-o ao som da guitarra de Andreas Kisser, do Sepultura, convidado de honra.
Os que pagaram até 300 reais
Alguns dos que estavam no camarote não sabiam exatamente o que acontecia lá no palco. Se colocassem um cavalo relinchando no microfone, eles estariam lá do mesmo jeito, porque o que importava era mostrar os dentes postiços para o maior número possÃvel de colunistas social que circulava por ali. Sim, os dentes eram postiços, o cabelo era postiço, as unhas eram postiças, os seios eram postiços e a personalidade era postiça, moldada à base do sobrenome de alguma dinastia local e dinheiro antigo, acumulado há gerações e gerações. Pessoas tão autênticas quanto o português com que Klaus Meine gritou “bua note, Punta Grôssa!â€.
No camarote havia cadeiras de plástico brancas e chope de graça em copos plásticos; os ricos refestelavam-se na felicidade de saber que havia uma divisão de classes naquele show, e eles faziam parte da classe que estava literalmente por cima. Mas classe é uma palavra cara, porque tomar chope em copos de plástico, usar roupas de caubói – no show de uma banda hard-rock – combinando com detalhes rosa, não é exatamente um exemplo de classe.
Little City Nights
Os Scorpions merecem consideração. Eles não deixaram o fracasso subir à cabeça. Eles não têm um sucesso há quase duas décadas. Se eu ganhasse 1,3 milhão em duas semanas, também não faria diferença. Foi um grande show. Com elementos capazes de comover os duros corações de alguns motociclistas com visual Hells Angels que estavam por ali. Com os hits, os solos, as coreografias, e os músicos nitidamente empenhados – apesar de eu desconfiar que, pela idade, eles saÃram de maca do palco.
A despeito de tudo isso, de todas as bandas alemãs que já vi no Centro de Eventos, a minha predileta continua sendo aquela que toca “zig-zag, zig-zag…voi, voi, voiâ€.
(em breve, a versão longa dessa reportagem: com ilustrações!)
Postado dia 13 de setembro de 2008
Qualquer um que trabalhe ou estude em uma instituição de ensino superior tem a enriquecedora oportunidade de conhecer intelectuais politicamente corretos, comprometidos até a medula com uma forma “alternativa†de forjar a formação dos alunos, prestÃgio da escola e ambiente amigável de trabalho, numa ordem crescente de importância. Este é o programa-piloto elaborado por alguns professores de Comunicologia da UniCórnio – Universidade de Cornélio Procópio. Aproveite o brilho intenso deste novo produto, o primeiro verdadeiramente revolucionário da história da TV procopiana!
APRESENTADOR: Olá, nosso programa não tem pauta, não tem roteiro, pois pauta e roteiro são instrumentos de dominação branca européia. O horário também é indefinido, pois não queremos estressar os produtores, técnicos, jornalistas e artistas. Antes de agradar você, espectador burguês alienado, acostumado com reality shows e programas de auditório resultantes de um sistema educacional decadente, devemos criar um ambiente em que nós, trabalhadores intelectuais, possamos aproveitar melhor a vida com a famÃlia e com os amigos.
APRESENTADOR 2: Por isso vamos escolher democraticamente qual será a pauta desse programa. Ligue para o número que aparece na sua tela ou mande email ou venha aqui. A gente bate um papo e tiramos um grupo de propostas que irá a uma segunda rodada de votação em data ainda a ser definida.
APRESENTADOR 3: GostarÃamos de avisar que não aceitaremos pautas sobre arte ou literatura, que são instrumentos de alienação branca européia. Também pedimos que os senhores espectadores parem de enviar pedidos envolvendo jornalismo cientÃfico. A Ciência é um recurso alienante, frágil, que não consegue explicar a verdade da vida.
APRESENTADOR 4: Amanhã, nosso trabalho como apresentadores será efetivamente apresentar os convidados que produzirão o programa: um pastor, uma ministra do Chá de Cipó Sagrado, um velho matuto, um tipógrafo e um fotógrafo cego. As pessoas falarão coisas que sairão do próprio coração, acreditando no seu instinto e no poder dos cristais.
APRESENTADOR 5: Mas eu gostaria de aproveitar o espaço para protestar contra a ausência de vários colegas apresentadores nessa edição… eles estão na emissora desde o inÃcio e não há dúvidas de que substituÃ-los é uma forma de desmobilizar a categoria…
APRESENTADOR 6: Agora são 21h45… o programa iria até as 22 horas, mas como o conteúdo já foi cumprido, vamos nos despedir. Os espectadores podem ler o resto nos jornais e apresentar um relatório amanhã. Um abraço.
Postado dia 5 de setembro de 2008
Os novos caras são arrogantes, vingativos, patifes. Os maltratados professores daquela instituição sentiram isso em poucos dias, mas nada os preparava para a enxurrada de crueldades que assolaria o departamento. Houve um tempo em que as flores brotavam das paredes naquelas salas de aula. Os alunos olhavam seus mestres nos ollhos e compartilhavam tudo: a ponto de se encontrarem nas tardes de sábado e domingo, frequentando o culto ou tomando uma cerveja gelada. Havia amor naquilo. Eis que o selo do apocalipse se descola na carta do destino.

“Então você é o novo cara!â€
Parece que sim.
“Vai ter um trabalhão. A Mafalda é uma das melhores. Os alunos adoravamâ€.
“Uma pena que tenha saÃdo, entãoâ€.
“É… você vai perceber que as coisas estão estranhas por aqui. Já foi muito legal. Agora é só cobrança e nada em trocaâ€.
Carlos olha para o lado, como poderia introduzir o assunto?… nem dá mais tempo. Os professores atravessam o pátio a galope por causa dos primeiros pingos da chuva.
Sandoval Presno, o coordenador, faz um ou outro comentário divertido com o funcionário que limpa uma das portas. Presno mantém um estilo quase bruto, mas doce, sempre impondo a voz com autoridade, não importa o assunto; ele sabe ganhar o baixo clero: paga churrasco para o pessoal técnico, bate papo sobre futebol e mulheres com desenvoltura. Logo será doutor em Sociologia, mas não esquece que seu charme depende da camisa pólo meio desgastada, por dentro da calça jeans e recheada pela barriga dos 36 anos, 18 casado. Às vezes olha para o espelho e pensa: um rapaz do interior, simples e confiável.
“A faculdade tá virando um caosâ€. Jessé continua a desfiar as “advertências†em tom baixo; é visÃvel para Carlos que o professor quer lhe trazer para o time dos descontentes. “Só colocam gente do tipo desse cara em cargos de chefiaâ€.
Entram todos na sala. Presno espera que sentem, olha para a pauta, e começa pelo mais importante:
“Bom, alguns já sabem que estou deixando a direção do curso, então não vamos demorar muito nissoâ€.
A professora Gina levanta as sobrancelhas educadamente, expressando uma surpresa consternada. Faz por gentileza e para limpar sua barra, já que sabia da notÃcia (assim como todos) havia alguns dias. Não teve tempo para criar uma conversa em que o fato se revelasse espontaneamente e, portanto, o tom de lamento não nascera na época apropriada.
“Mas é por um bom motivo, pelo menos eu acho. Passarei a coordenar o Projeto Rumor.
Agora as sobrancelhas se levantaram espontaneamente. E o ar de lamento não foi menos legÃtimo.
“Nossa… parabéns!â€.
As reticências representam um tremor na voz de Gina, que, além de lecionar Gabriotinagem II, já foi diretora do curso que fica duas portas à esquerda do corredor. O Projeto Rumor… uau!
“Mas não vamos falar de mim. Tivemos um concurso para substituição da professora Mafalda, que deixou as disciplinas, e o Carlos Parker aqui, que muitos aqui já conhecem, foi muito bem nas bancasâ€.
Carlos não é modesto, mas se sentiu constrangido. Passou rápido.
“Tão bem que a diretoria resolveu convidá-lo para me substituir na direção do cursoâ€.
No meio do caminho, Jessé já deduzira o desenlace e, talvez por isso, mal Presno terminou a fala, a mão do professor quase tocava o peito de Parker.
“Parabéns! Seja bem-vindo!â€
Lúcio, professor de Montagem e coordenador das atividades de extensão, sorriu. Ele tem uma impressão boa do novo cara. Parece jovial e divertido; comentava-se que tinha ligação com a “esquerdaâ€, foi cabo eleitoral do Lula em locais em que estrelas e flâmulas vermelhas poderiam representar perseguição profissional.
“Bom, pessoalâ€, Carlos começou, “eu não quero me adiantar muito, pois preciso conhecer o curso primeiro, ouvir todos, circular entre os alunosâ€.
Lúcio chacoalha a cabeça com um sim motivacional; um filme em sépia roda na sua cabeça, inclusive com o barulho das bitolas. Para muitos da sala, os primeiros anos daquele curso foram lindos, um projeto verdadeiramente democrático. Democrático, ele sussurra como em uma oração. Quantas vezes a nata dos professores engajados se reunia, à s vezes em um boteco, tarde da noite, para debater as grandes questões? Quantos grandes profissionais dedicaram seus finais de semana para enriquecer aquele curso? Mas, nos últimos tempos, era só cobrança, só cobrança. Carlos talvez tenha vindo nos recuperar…
“Mas uma coisa eu sei. Nós estamos perdendo alunos, cada vez maisâ€.
Lúcio quer encarar Presno, quer que Presno ouça a verdade: ele e a polÃtica estúpida das pessoas que estavam mandando agora eram os maiores responsáveis por tal queda!
“E podemos apontar muitas explicações para isso… sei que não atraÃmos pessoas ricas, não temos aparecido na mÃdia tanto quanto deverÃamos…â€
Será que Parker terá coragem de dizer “a verdadeâ€. Tomara que sim, torce Lúcio.
“Pode ser isso, podem ser outras coisas. O fato é em pelo menos de um aspecto temos pleno controle. Algo que precisamos fazer urgentemente…â€
A Revolução!, pensou Neco, professor de Cruptigramagem, um pouco avoado naquela sábado. Sexta à noite tem reunião da União da Babosa Sagrada.
“Melhorar a qualidade das aulasâ€.
Wow!, como dizem nos seriados de televisão.
“Tenho certeza que todo mundo aqui é sensacional. Só que ontem eu conversei com vários alunos e percebi que eles estão despreparados até nas questões mais simplesâ€.
Como assim?, pensou a platéia, mantendo-se, no entanto, calada.
“Alunos dos últimos perÃodos… cheios de idéias messiânicas, completamente ultrapassadas sobre a profissão. Percebi que não dominavam temas básicos. Fiquei chocadoâ€.
Um trovão e o céu despenca. A secretária bate à porta. Quatro dos professores precisam ir a um treinamento.
“Bem, a gente conversa depoisâ€.
Pequeno colóquio cinco minutos mais tarde, no carro do professor Cleudimar, padrinho de dois dos filhos de Jessé e parceiro sindical de Gina:
“Que história é essa?â€
“Que besteira foi aquela?â€
“Como o cara diz um negócio daquele?â€
“Essa de culpar o professor pelo fracasso dos alunos, que coisa mais antiquada!â€
“Já vi que o cara é delesâ€.
E o granizo tamborila no capô, prejudicando as maledicências. Lúcio, ainda atordoado, procura o próprio carro no estacionamento e luta para que nenhuma pedra lhe acerte o olho.
Continua…
Postado dia 27 de agosto de 2008
A vida começa a voltar ao normal no número 1717 da Rua do Tatu Esperto. Rocky Ombro ainda tenta encaixar as peças do quebra-cabeça que envolve uma enfermeira, a suposta ex-mulher, Romeniatown e um suspeito com duas cicatrizes em forma de redemoinho. “O que essas empresas de brinquedo não fazem para vender!â€, protesta, desistindo de encontrar o encaixe que talvez represente um pedaço de tecido xadrez.

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“O que quer para o jantar, filha?†A voz é macia, emitida por um biquinho amoroso pela fresta da porta colorida do quarto de Elizabete.
OVO, ela escreve no bafo da bolha, imprimindo um enorme sorriso de felicidade no rosto cansado do detetive. “Obrigado, meu Deus, ela já começa a dizer coisa com coisa!â€
Enquanto comem a omelete – uma receita especial com pasta de amendoim, criada especialmente por uma cartomante -, O AVATAR reflete sobre a importância da manhã seguinte: é o dia do teste para o papel de Blanche Dubois na peça da escola.
Elizabete estaria no espetáculo de qualquer modo, por causa da cota de dez por cento exigida pelo governo, mas o orgulhoso pai se sentiu ofendido ao descobrir que haviam criado o papel de irmã muda de Mitch para oferecer a sua filhinha. Depois de mencionar um nome do passado para a professora Ludmila, as portas foram abertas, pelo menos para um teste.
“Como sabe sobre o barão?â€, Ludmila sussurrou em tom grave.
“Alguém me disseâ€.
De toda maneira, a preciosa cria do papai teria sua chance, Ã qual se agarraria com todos os tubos.
“E para a sobremesa? Alguma fruta, meu amor?†Ela faz que “sim†com a cabeça, mas escreve algo tão lindo que Rocky Ombro jamais esquecerá – apesar do acento errado.
ÃMOR
O AVATAR abraça a bolha, com lágrimas indisfarçadas, e promete pela oitava vez naquela noite:
“Eu juro que nada de ruim acontecerá contigo, minha filhaâ€.
**
Na manhã seguinte, durante o intervalo dos testes, Ombro aproveitou para conversar com o doutor Lagomar, padrasto de Jefferson Júnior, favorito para o papel de Stella.
“Por que desconfia de dislexia, Rocky?â€
“Ela está melhorando, doutor, mas escreve algumas letras ao contrário. Acerta T, A, O, V, X, M… O problema é a enorme dificuldade com B, R, C, P…â€
O AVATAR parou a frase no meio. Lagomar entendeu que era emoção e tentou animá-lo a continuar, mas foi interrompido.
“Shhhh. Cheire!â€, disse Rocky com o dedo indicador em frente aos lábios. “É fumaça!â€
Uma voz fina e infantil ecoou das coxias. “Fogo! Salvem as crianças!†Tratava-se do diretor Claiton Bentevi. Com as gêmeas Botelhinho nos braços, Bentevi pulou por sobre as cadeiras até chegar à saÃda de emergência. Atrás dele, as labaredas consumiam o velho madeirame do colégio.
Os bombeiros conseguiram controlar o incêndio duas horas depois. Como estava no depósito de fantasias, por causa da bolha, Elizabete acabou esquecida. Por sorte, o campeão mundial de rugby, Aparecido Roger dos Santos, passava pelo local, percebeu o desastre eminente e, num ato de bravura, agarrou o aparelho de sobrevivência e correu por dez jardas até a linha fora da escola.
O fato é que Elizabete sempre dependeu da bondade de estranhos.
“Não é a primeira vez que esse colégio pega fogoâ€, lembra o agente Cassius Fox Smitherson, de cócoras enquanto analisa um tição grudado a uma carcaça de cachorro. “Em 1962, oito pessoas perderam suas vidas naquilo que ficou conhecido como O Churrasco da Escola Sinistraâ€.
O AVATAR sentiu que poderia haver uma conexão. “Hmmm, exatos 47 anos depois. Isso parece um padrãoâ€. Fixou os olhos por sobre o ombro direito do agente, perto do último foco de incêndio, onde as gêmeas Botelhinho – Jeniffer, Jacqueline, Tábata e Cleonice – eram atendidas. Havia um rosto formado pelas chamas, um rosto que só o terceiro olho de Rocky Ombro poderia enxergar.
“Cassius, o que descobriram naquela parte da escola onde milhares de pombas foram torradas?â€
“Ah, nada de importante, apenas mais um smash-coinâ€.
Smash-coin é o apelido que o pessoal da perÃcia cientÃfica dá para descobertas interessantes, mas que não contribuem para resolver o caso.
“Descobrimos uma reação quÃmica que transforma canetas de quatro cores em alpiste orgânico de alta qualidadeâ€.
Bastaram dez segundos para a mente astuta d’O AVATAR cantarolar o significado daquele sinal: “passarinho na gaiola, feito…â€
“Ei, Linus, aquiâ€, gritou, “me leve à Ma Ju Se Maro.â€
“Ao Museu da Imigração Japonesa?â€
“Não! Ao Manicômio Judiciário de Segurança Máxima de Romeniatownâ€.
Pela segunda vez na semana, Rocky voltaria àquele covil de abutres peçonhentos. Dessa vez, direto no coração das trevas.
**
O acesso ao Setor Cinco só é permitido a três tipos de pessoas:
1) aos que trabalham no local;
2) aos que apodrecem para sempre nas celas escuras;
3) aos visitantes e curiosos.
Nas catacumbas do Setor Cinco, Ombro se encontraria com Donald Storm, conhecido nos anos 70 como “O Incendiário de Patópolisâ€.
“Isso é realmente necessário, detetive? Esse lugar me dá calafrios!â€
“Para chegar a um criminosoâ€, explicou com paciência, “é preciso entender a sua menteâ€.
Linus deu-se por satisfeito, embora não entendesse qual era a relação de sua mente com o manicômio e com o incêndio.
O perigoso Setor Cinco está lotado de criminosos que se converteram a Cristo. Donald Storm já foi o número 2 na máfia interna do presÃdio, apenas atrás do ex-skin-head, ex-homossexual e ex-negro Matias Salame, famoso no circuito off-jail pelo compacto “Jesus me esqueceu na cadeiaâ€. “Esse cara é fodaâ€, diz ao pé do ouvido o carcereiro Ananias, temeroso, pois “as grades têm ouvidos e Deus tá vendoâ€.
Donald está sempre em pé sobre uma pilha de pneus, olhando sem piscar para a luz. De cinco em cinco minutos, pula no mesmo lugar e grita: “Viva São Bisonho, santo padroeiro dos corcundasâ€. Aà responde para si mesmo: “Viva!â€
Rocky e Linus entram na cela: “Estamos diante do homem cuja inteligência vai nos ajudar a pegar o incendiárioâ€, introduz o detetive.
Para ganhar a confiança do célebre criminoso, Ombro levou o único disco evangélico gravado por Storm, “O Fogo de Jesus me Curouâ€, e pediu um autógrafo.
Enquanto escrevia “Me Tira Daqui, Raul†na contracapa, o presidiário olhava para os lados e confessava seu plano aos visitantes. “Até o final de semana estarei fora daqui. As pessoas dizem que é impossÃvel escapar de MaJuSeMaro, mas não sabem que fui eu que projetei esse lugar! Sabem como fugirei?â€
“Por que ele nos contaria, detetive?â€, sussurrou Linus.
“Todo psicopata é, no fundo, um exibicionista. Ele precisa mostrar sua insuperável inteligência para alimentar o ego famintoâ€.
“Teletransporte!â€, concluiu Storm.
“Antes disso, caro amigoâ€, interrompeu Ombro, com as mãos juntas na frente do rosto, como se estivesse rezando, “Por que alguém incendiaria a mesma escola duas vezes num intervalo exato de 51 anos?â€
“Viva São Bisonho, o santo padroeiro dos corcundas!â€
“Então é isso!â€.
“Viva!â€
Puxando Linus pelo braço, O AVATAR saiu a passos largos de Romeniatown. Sua missão chegara ao fim. O trabalho agora caberia ao tenente Hernandez Lopez – organizar um grupo de busca para recolher todos os corcundas da cidade e fazê-los falar, mesmo com métodos pouco convencionais. “Dentro da delegacia, os direitos humanos não produzem respostasâ€, explicou para o assistente que, como naturalmente não podia ouvir o que o detetive pensava antes de chegar à justificativa, não entendeu a frase.
No próximo episódio: Ao investigar o assassinato de um monge numa convenção de auto-ajuda administrativa, Rocky Ombro reencontra Dirce, agora operadora de telemarketing. Não deixe de estar lendo: “Pai Rico, Filho Assassinoâ€.
Postado dia 23 de agosto de 2008
Mike, Todd, Elmer, Michael, Ismael, Marcus, Tobias, Nathanael, Jeffrey e Cleverson Elder não são detetives comuns. Eles são todos irmãos e investigam juntos os violentos crimes do distrito de Guaragi, em Ponta Grossa. Os irmãos Elder provam que uma famÃlia unida vence qualquer desafio.

O delegado Frank Gutiérrez entrou em pânico quando encontrou os corpos do casal Motta nas cercanias da chácara Maravilha.
Ligou imediatamente para o mais velho dos Elder, Mike. Cinco minutos depois, a perua da famÃlia de detetives, conhecida pela imprensa de Ponta Grossa como a van Elder, cantou os pneus em frente à velha estação da companhia elétrica. A cem metros dali, os policiais tropeçaram no monte de terra que se revelou a cova rasa onde estavam escondidos os corpos de Berga e Omar Motta.
Gutièrrez: “Passamos dois meses procurando pela vizinhança e nunca desconfiamosâ€.
Nas horas vagas, os policiais usavam a elevação para marcar a quadra de queimada.
“Filho, estou nessa profissão há 43 anos e, faltando apenas metade disso para a aposentadoria, ainda me surpreendo todos os diasâ€.
Os irmãos Elder sempre falam em jogral, uma coisa que aprenderam com seu velho pai.
“Essa…â€
“Vida…â€
“É…â€
“Cheia…â€
“De…â€
“Surpresas…â€
“Delegado…â€
“Gutielez…â€
“… camarada…â€
“Isso aÃâ€.
Cleverson era só um bebê quando seu pai, o sargento Helder Elder, não suportando o falecimento da esposa, levada por um ataque fulminante de seborréia, tirou a própria vida com oito facadas nas costas. O choque por causa da tragédia trouxe traumas a todos os filhos. Nathanael, por exemplo, passou a trocar o “r†pelo “lâ€. Mas Cleverson, o caçula, sempre tem flashbacks bons quando toma banho. Consegue ver a holografia de seu pai, vestido com um manto marrom e uma espada de luz, e escuta conselhos embaixo do chuveiro.
Helder Elder pregava a unidade familiar acima de todas as coisas loucas desse mundo insano. Então o casal e seus dez filhos faziam tudo juntos, inclusive tomar banho. Avós e primos que ocasionalmente vinham de Imbituva também entravam no sabão. Falar em jogral foi a última lição do sábio e ponderado pai:
“Está no Livro Sagrado, filho. Zafeu, capÃtulo 8, versÃculo 8: a famÃlia que fala unida, ficará unida como a prole de Noé, cuja fé livrou os bons animais da fúria do Pai Celeste. Amémâ€.
“Amém, papaiâ€.
Mike começou a perguntar:
“Quemâ€
“éâ€
“oâ€
“principalâ€
“suspeitoâ€
“desseâ€
“crimeâ€
“holendoâ€
“delegado?â€
“É isso aÃ!â€
Segundo o aturdido policial, os vizinhos descreveram vagamente um sujeito negro, com duas cicatrizes em forma de redemoinho na região lombar, vestido com um colete do Clube dos HemofÃlicos, saindo sujo de sangue da casa dos Motta. Ele arrastava um saco pesado de cuja abertura saÃa uma mão.
“Pode ser qualquer coisaâ€, deduziu o delegado.
Segundo as testemunhas - pessoas que freqüentam o templo de Jeová na frente da propriedade -, um homem que se encaixa na descrição havia ocupado uma casinha sanitária no fundo da chácara Maravilha.
“Descobrimos que o casal Motta estava tentando tirar esse homem da casinha há meses, mas ele alegou que era propriedade improdutiva desde que os donos construÃram um banheiro nas dependências da casaâ€, explicou Gutièrrez.
Na verdade, Omar Motta dizia a quem quisesse ouvir:
“Produtiva ou não, a casinha é minha. Se eu construà ou herdei do meu pai, o problema é meuâ€.
Com seu sistema randômico de celulares, os irmãos Elder ligaram para o juiz Silvester – que lhes devia um favor – e solicitaram um mandado de busca. De posse do documento, arrombaram a porta da casinha e, ao dar voz de prisão… não havia viv’alma. Apenas um bilhete em que se lia: “Reforma Imobiliária Já! Morte aos tubarões imobiliários! Viva a revolução urbanaâ€. E um desenho mal feito do Bob Cuspe ao lado da patente.
Mascando fumo, o delegado Frank Gutièrrez olhou para cada par de olhos dos Elder. Ele sabia o que fazer. Foi até o rádio da polÃcia e passou o procedimento:
“Atenção todos os carros. Prendam todos os negros hemofÃlicos sem-teto que encontrarem. Isso é para ontem!â€.
A última frase, na verdade, deixou os policiais muito confusos.
Os irmãos Elder entraram na van e voltaram para o Núcleo Habitacional 31 de Março, sua base de operações. Pela primeira vez, Nathanael conseguiu ver o espectro do pai, cavalgando ao lado da perua.
“Bola pla flente, papaiâ€, pensou.
No próximo episódio: Desafetos da polÃcia, os irmãos Elder encontram enormes dificuldades para, juntos, investigar a cena de um latrocÃnio. Não perca: “Crime no Elevadorâ€.
* Se você quer entender qual é a piada dessa foto, siga em http://victorbop.blogspot.com/
Postado dia 20 de agosto de 2008
Rocky Ombro já passou por muitas coisas, mas não ficou imune ao acidente aéreo. Duas semanas depois de ter sido reintegrado ao trabalho, se sente incomodado, vazio. Algo está errado. Para O AVATAR, não são apenas as lembranças da queda do avião. Falta alguma coisa… Quando revira pela quinta vez as gavetas de sua mesa, encontra um porta-retrato. É isso! “Srta. Gavirova, ligue para o Correio!”
O depósito do Correio fica na região mais escura da cidade. Para Ombro, seu nome poderia ser Covil de abutres peçonhentos, mas para a maioria das pessoas é simplesmente Romeniatown.
A solÃcita atendente parecia fora do lugar: não usava as medonhas capas negras com forro vermelho que os imigrantes ostentam com tanto orgulho naquele pedaço de inferno.
“No que posso ajudá-lo, senhor?”
Ah, tantas respostas espirituosas! Ombro poderia pedir um novo sentido para sua vida, implorar que ela lhe arrancasse o dom – ou seria “maldição”? – que o conectava ao mundo ignorado pelas pessoas comuns. E se ela devolvesse a saúde à Elizabete? E se a balconista explicasse o que aconteceu com Seigla, seja ela quem for? E o sargento Lucius, poderia ressuscitá-lo?… ao invés disso, o detetive foi direto ao ponto.
“Fique de quatro”.
Na verdade, ele apenas pensou nisso. O que disse foi:
“Eu vim pegar minha filha”.
Três semanas haviam se passado e o correio não entregara a bolha com Elizabete Ombro no endereço que Rocky chama de lar.
No caminho do grande depósito, revelado por apenas três lâmpadas de 60 watts, mal encaixadas em balouçantes luminárias encardidas, a funcionária do Correio tentava se justificar:
“Não conseguÃamos achar o endereço que sua filha escreveu no bafo da bolha”.
7171, OTREPSE UTAT OD AUR
Ombro deu o braço a torcer: Elizabete se equivocara, pobrezinha. “Sua saúde mental começa a ser abalada pelos anos de confinamento”, pensou o amargurado pai.
“Preciso assinar alguma coisa?”, solicitou ao dar dois passos à frente da balconista para espalmar a mão na parede esférica, encaixando na palma de Elizabete.
“Talvez o seu testamento, Rocky Ombro…”
Pelo reflexo da bolha dava para perceber a pistola C32 de sete tiros. Na verdade, era de cinco tiros, mas a superfÃcie curva do balão cria efeito de grande angular. De qualquer modo, o trabuco não combinava com aquelas mãos delicadas.
“Ou será que devo dizer papai?”
Ombro esmoreceu. Não conseguia mais esconder de si mesmo porque odiava tanto aquele covil de abutres peçonhentos.
“O que foi?”, ela desafiou, mudando numa rapidez incrÃvel o semblante inocente para um rosto diabólico e rancoroso, “Acha que consegue vir a Romeniatown e simplesmente desprezar o passado?”
Ombro mal consegue olhar.
“Vocês são todos loucos! Sanguessugas malditos, saem pela madrugada roubando a alma das pessoas de bem…”
“Cale-se, chega das suas metáforas baratas, papai. Agora é a hora da verdade”.
Naquele momento, Rocky Ombro sentiu uma presença no depósito. Não conseguia perceber de onde vinha, mas um vulto se mimetizava naqueles cantos centenários onde as teias de aranha se cristalizaram intocadas. Bastou um sopro na nuca, vindo do invisÃvel, e a subjugante foi tomada do pânico.
Disparou a arma, atabalhoada. A bala passou a cinco centÃmetros do pescoço de Rocky. Sem pensar duas vezes, o detetive se atirou ao corpo à sua frente e, duas roladas para lá, duas para cá, tomou o revólver.
Sim, era a hora da verdade, e os dois antagonistas se olhavam sem trocar uma palavra sequer.
Até que um estranho som de bexiga esvaziando tomou o ambiente. A bolha! Desesperado, Rocky Ombro olhou para todos os lados e percebeu uma caixa de grampos variados, endereçada a uma tal Baronesa Olga Albuquerque. Atirou no pacote e dele recolheu dois alfinetes que não haviam sido estraçalhados pelo projétil. Foi o que bastou para interromper a contaminação da bolha onde vivia sua querida Elizabete.
“Nunca vou deixar acontecer nada com você, minha filha”.
Elizabete escreveu no esquálido bafo que não vazou pelo buraco da bala:”?ARUJ”
“Saruj, meu amor, saruj!” E Rocky Ombro desconfiou pela segunda vez naquela noite que talvez Elizabete sofresse de dislexia.
O interlúdio proporcionara à agressora uma escapatória. Da distante porta nos fundos do depósito, ela gritou: “Não acabou aqui, papai”.
Mas a porta estava fechada. E Ombro deu voz de prisão.
**
No espelho do banheiro da delegacia, O AVATAR percebia mais um sulco de sofrimento se acrescentando ao relevo escarpado de sua testa. “O que você quer de mim?”, sussurrou sozinho, tendo em mente a imagem da mulher armada.
Ao passar pela cela, incógnito, ainda pode ouvir a detenta se desentendendo com o carcereiro: “Eu não vou ficar aqui por causa daquele maluco assombrado, papai.”
“Mais uma coisa antes de eu ir embora, srta. Gavirova”, recuou da porta da frente, “Como se chama essa garota de Romeniatown?”
“Só sabemos o primeiro nome, detetive. Tá aqui no boletim de ocorrência…”
Seigla.
No próximo episódio: Rocky Ombro convence a professora de que Elizabete deve ser Blanche Dubois na peça da escola. Mas um incêndio criminoso pode pôr tudo a perder. Não perca: “S de PiromanÃaco”.
Postado dia 15 de agosto de 2008
Muitas “coincidências†marcam as vidas de Samuel, Samira, Sandoval e Silviano. Nasceram no mesmo dia, estudaram nos mesmos colégios, apreciam os mesmos pratos e seus pais têm os mesmos nomes. Para completar, os quatro decidiram se formar em Medicina. Duas outras coisas ligam essas pessoas especiais: são irmãos gêmeos e mutantes passando pelos desafios da pós-adolescência.
Mais uma coincidência: o Centro Hospitalar de Romeniatown é o endereço de suas residências curriculares. É ali que tentam usar seus poderes para salvar vidas.
“Mamãe vai ligar”, deixa escapar Samira enquanto retira um apêndice.
O sistema de som dos corredores confirma a previsão:
“Dra. Samira Elesbão, telefone”.
Silviano, ainda deslumbrado com os poderes da irmã, larga a assistência da cirurgia e corre para o aparelho instalado no corredor.
“Vou passar a ligação de Altair Elesbão, Dr. Silviano”.
Secretamente, o mais instável dos irmãos Elesbão sempre espera que a irmã se engane: ela é tão perfeitinha, tão exemplar, que dá nos nervos! Havia uma chance de que não se tratasse de mamãe, já que o pai dos quadrigêmeos também se chama Altair.
“Oi filhão”, disse a orgulhosa Dona Altair, “a Samira não pode atender?”
“A favoritinha tá trabalhando, mãe”.
Silviano ama a irmã, mas a competição, à s vezes, abala o relacionamento entre os filhos de Altair e Altair. Quando isso acontece, o garotão se fecha no banheiro dos empregados e exercita seu poder mutante: criar pêlo em frutas. Como os quatro Elesbão fizeram um pacto incompreensÃvel de jamais revelar seus poderes em público, o imaturo Silviano vive passando por saias justas. “O que faz com essa banana peluda?”, perguntou a enfermeira Dirce ao flagrar o revoltado médico saindo do toalete. “É minha fantasia de Halloween”, gaguejou, “Mas ficou pequena. Vou devolver”.
Samuel passou por duas crises graves de intestino preso, o que quase o levou à morte por sufocação. A dura experiência o deixou mais maduro que os irmãos. Eles reconhecem essa liderança e sempre ouvem quando Samuel tem alguma coisa para dizer.
“Não precisa invejar nossa irmã, Silviano. O poder de prever quando nossos pais vão ligar é uma benção, mas não serve apenas a ela. É para todos nós e para toda a humanidade”.
“É, eu sei”, admitiu o jovem doutor, enquanto ajeitava o topete no reflexo do aparelho de eletrocardiograma. “Mas eu não sei se agüento tanta pressão. A verdade é que eu nunca quis ser médico”.
A revelação chocou Samuel. Mesmo assim ele disfarçou, olhou para o relógio e se despediu, fingindo que tinha um compromisso na pediatria. “Vou dar uma checada nos pirralhos”, disse com um sorriso amarelo. Foi até o telhado do Hospital. Precisava ficar sozinho e, embora jurasse jamais usar seu poder à toa, se transformou na bandeira da cruz vermelha e ficou tremulando o resto da tarde. O homem que mais tarde subiria lá para consertar uma antena jura que viu uma lágrima escorrer da flâmula.
“Você viu o Samuel por aÃ?”, perguntou Sandoval, contente por ter salvado o terceiro rim durante a semana.
“Ah, não vi que era você! Quantas vezes eu preciso repetir que não devemos usar nossos poderes em público?”, ralhou Samira, brandindo um bisturi. “Que droga, por que eu tenho que fazer o papel da irmã chata?! Vocês não crescem!”.
Bem-humorado, Sandoval mudou a cor dos olhos novamente para castanho. “Tudo bem, azul não combina com meu pulôver”.
“Não sei de Samuel, vá procurar na enfermaria. Eu sei que você adora passear entre as enfermeiras”.
“Entre as enfermeiras! Precisamente! Falar nisso, olha quem chegou. Ei, Dirce, viu meu brother mais caxias por aÃ?”
“Já tentou o mastro?” E saiu, lacônica.
Samira e Sandoval se olharam atônitos. Ambos pensaram: “Meu Deus, ela sabe!”, mas antes que pudessem expressar seu espanto, o dom da garota se manifestou:
“Papai vai ligar”.
Dois minutos depois:
“Filha, pode trazer um abacaxi quando vir para casa? O teu irmão arrumou um muito peludo”.
 No próximo episódio: Samuel pega no sono e é levado por engano pela Cruz Vermelha. Num programa de TV sobre conjuntivite, Sandoval muda a cor dos olhos para seduzir a apresentadora. Silviano leva um barbeiro com Mal de Parkinson para uma plantação de tomate. Samira prevê o telefonema de um homem chamado Juraci e Dona Altair é obrigada a confessar que traiu Seu Altair. Não perca: “Algumas doenças são para sempre”.