91Rock - Msica, informao e atitude 91 Curitiba Newsletter Qual  boa? Lanamentos Rdio Ao Vivo Notcias Blogs Clipe da Vez Ba da 91 Top 5 S Bandas Entrevistas 91Rock

A mediocridade é inocente?

Postado dia 4 de janeiro de 2009

Não.

 

 

 

 

 

 

 

 

Na semana passada, eu troquei o preço de um produto no supermercado e, por causa disso, uma pessoa morreu.

Estou ansioso para contar como tudo aconteceu, ansiedade motivada especialmente por fenômenos maravilhosos que vivi e me transformaram em alguém diferente do que sempre fui. Sinto hoje, mais do que nunca, que precisamos compartilhar nossas experiências extraordinárias – até para testar se elas realmente soam verdadeiras, reais, quando pronunciadas.

(com o tempo, aquilo que nos transforma por dentro, especialmente se, se desenrola no íntimo, vai se desfazendo, pulverizando na memória e quando, mais velhos, tentamos retomá-las, percebemos que nada foi materializado de verdade. Então parece um sonho, na melhor das hipóteses. Ou uma mentira. Além disso, nós, aqueles que cremos, temos uma missão desconfortável e fundamental: “naturalizar” o improvável. Praticá-lo em palavras até que se torne parte da textura do cotidiano, tão imbricado nos objetos do mundo que pareça mais sólido que os out-doors, as imagens da TV, os esportes olímpicos ou quaisquer outras daquelas substâncias que, no fundo, ninguém realmente vive).

Em primeiro lugar, fui abençoado com uma Visão. Em seguida – parece algo menor, mas, creia-me, é tão importante quando quaisquer outros acontecimentos que iluminaram minha vida nessa escalada dos Últimos Dias – conheci um indivíduo que, por causa de sua total aversão ao que sou e no que acredito, reforçou meus laços de confiança na Revelação que me foi concedida. Por último, fui arrebatado. Entende bem o que é isso? Eu fui alçado, com meu corpo físico, do jeito exato que me constituo, para um novo plano cósmico.

É difícil resumir o desencadeamento desses eventos, mas tentarei ser o mais objetivo que puder. Começo por tentar me definir de maneira honesta.

Eu sou uma pessoa medíocre.

Agora percebo que o significado da palavra ganha lustrosos contornos ofensivos, dependendo de quem ouve; já entendia que sua superfície feria os tímpanos de quase todos, inclusive os meus, mesmo que a verdade sobre a expressão me escapasse e, provavelmente, viva como mera impressão na mente dos outros.
Quando você descobre que medíocre significa “mediano”, o que, de certa forma é elogioso, uma vontade de ser medíocre lhe invade como uma rajada suave de chuva, sem dor, sem pesadelo, e você se entrega tranquilamente, aceitando essa bênção de pertencer à raça humana. Sim! Uma vez que aprecias a Humanidade – e eu aprecio, sou um ardoroso fã de nossas qualidades e pesaroso cumpridor de nossos defeitos – há, me diga, honra maior do que representar o exemplar ideal? Se um marciano visitasse a Terra pela primeira vez, que impressão teria da Pessoa Humana? Conheça-me, estrangeiro! Terás o perfil mediano do homem terrestre. Sou o Homem Exemplar assim como o Big Mac é o prato típico do planeta.

Mas ao praticar a palavra “medíocre”, mesmo no sentido glorioso que ela tem, percebi as bocas retorcerem e os queixos se erguerem em uma mistura de empáfia e desafio. Quem és tu para me chamar de medíocre? Puxa, imaginava que ao brindar um colega com o substantivo (não pensava na palavra como adjetivo, parecia circunstancial demais), o chamava para uma espécie de clube, um clube que tem a melhor das qualidades: a despretensão. Qual é o grande problema dos guetos, nichos, tribos e outras comunidades forjadas nesse mundo despersonalizado? É a arrogância, o sentimento de exclusão, o esforço pela própria marginalização. Na Sociedade dos Medíocres todas as pessoas sem nada de especial são bem-vindas. Elas realizam o Santo Milagre que o Catolicismo tem deixado escapar pelos vãos dos dedos: reverter a contradição em unidade! Cada medíocre é um ente particular e especial na Sociedade dos Medíocres. Algo bem maior que uma Santa Trindade. É uma Santíssima Multiplicidade!

Se você já viu um medíocre, viu todos! Não faz uma coceguinha boa no alto da barriga? Uma sensação de estar em casa, protegido pelo Bom e pelo Perdoável reconhecidos e praticados por todos?

Talvez você duvide de mim, pelo jeito que falo, já que um pressuposto de mediocridade é evitar considerações complexas sobre a natureza das coisas – entendo que pode parecer que agora deixei escapar alguma pretensão, mas procure me entender: não acho que as palavras com as quais comecei esse texto recomendem muita profundidade; assim mesmo, devo dizer, são frutos de uma Revelação.

Sim, eu vivi uma Revelação!

(e agora, quem sabe, comece a me tornar mais verossímil, já que essas expressões vazias da religiosidade são bolinhas coloridas na árvore de Natal dos medíocres. Sinto um arrepio de satisfação ao concluir que a superfície vazia e tola da mediocridade seja tão sensível ao abracadabra religioso. É, antes de tudo, uma vantagem inominável. Intelectuais e artistas talvez precisem de muito – ou talvez nunca consigam chegar a lugar nenhum – para sentir, sentir de verdade, olhar o mundo com a intensidade que só o amor barato pode oferecer. Um intelectual nunca estará pronto para uma Revelação religiosa. Pessoas que estudam de verdade – não nos enganemos, “estudos bíblicos” é uma palavra safada para doutrinação canhestra – exigem tanto de si mesmas que perdem o contato com a real materialidade de seus corpos. Somos pó. Mediocremente. Então, qual é a vantagem de uma Experiência Estética Autêntica? Existe essa bobagem? Eu choro com A Revelação. Qualquer uma. Pode ser a de que Jesus voltará para limpar os terrenos baldios do universo. Pode ser a de que Flora não é mãe de Lara. Ou de que a Sandy usa um aparelho miraculoso que afina sua voz, tornando suas belas músicas uma farsa, embora eu mesmo não perceba qualquer diferença entre uma nota afinada e um besouro arranhando um vidro).

* continua…

As fotos do post são do meu celular, em uma das tardes ensolaradas das últimas semanas em S. Francisco do Sul

Vai se arrepender?

Postado dia 14 de dezembro de 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Não.
De manhã vi cães cruzando no estacionamento de uma farmácia. A cadela não me comove. Parece não se importar. O cachorro estremecia. Ela daria algum sinal de interesse, mesmo fortuito, que indicasse ao macho que está de acordo? Ela quer?
***
Um traço que de longe parecia pontilhado virava um vinco, separando uma parte clara de outra mais turva na testa alta da garota. Bastava ela se surpreender. Outras reações pareciam planejadas, interpretadas. Mas a surpresa era legítima, só podia ser. Ninguém finge espanto com tamanha naturalidade.

Depois de uns dias de provocações superficiais, creditadas mais à minha irreverência do que a um desejo legítimo, me vi às suas costas, com o antebraço suavemente pousado na esteira de suas costelas, num arranjo para que pudesse conversar com a outra menina, sentada ao lado. O restaurante cheio, as pessoas rindo, os objetos nostálgicos pendurados pelos cantos, uma música pretensiosa obrigando os falantes a chegarem perto para serem entendidos.

Mas não foi do seu ouvido que cheguei perto, foi das suas costas. Uma distância branca como a parte interna de uma embalagem, salpicada de pintas marrons, estufada pelas saliências dos ossos do ponto meridiano da espinha. Enquanto falava com a outra, usando-a como apoio, ousei seguir algumas vértebras com os dedos, carinhosamente. Não se pode interpretar isso como irreverência.

Ela não me olha, parece não perceber ou se importar. Parece não se afetar. Até que, ao voltar à posição original da mesa, ao seu lado, recebo um olhar mudo, com os lábios inertes, sufocados, e quando o breve momento de diálogo acaba, a boca se entreabre, num átimo que vira uma mancha com a cabeça se voltando para a frente, para os comensais. Uma fotografia em baixa velocidade.

Precisa de carona?

Deixo-a na porta do apartamento, conversando sobre amenidades. Toco seu rosto com as costas da mão para me despedir, um gesto que não lembro de ter feito alguma vez. Ela baixa os olhos, segura meu pulso, escorrega a maçã rosada, cuja maquiagem já se desfaz, em direção ao alto, até que os nós dos meus dedos alcancem seus lábios.

Levanta os olhos e se segura, longamente, nos meus. Sei agora que uma fúria crescia a partir da última vértebra da minha coluna, como se eu estivesse de ponta-cabeça e um líquido viscoso, quente, se derramasse entre minhas nádegas e preenchesse cada cavidade, transbordando para a seguinte, chegando ao meu pescoço e daí para a minha nuca.

Espalmo a mão direita no seu ventre. Vejo que encaixa perfeitamente entre a jóia pendente no umbigo, com o limite do dedo médio, e o sulco inferior da palma da mão na concavidade que inicia seu sexo. Empurro-a até a parede para além da entrada. Com o cotovelo, fecho a porta atrás de mim.

Meu olhar tem essa fúria e é nesse momento que o traço de surpresa se molda, brilhante pelo suor, ressaltado pela meia-luz, na sua testa. Há algo de desespero no seu rosto, talvez até ela não bancasse a provocação, cheguei a cogitar. Sua boca, no entanto, avançou sobre a minha com tamanha fome, tamanha sede, que senti espocar nas coxas e na boca do estômago um remendo de ansiedade que parece ter fluído daquela garganta. Afasto seu cabelo, enterro meus dedos na sua nuca e sinto, com o polegar, as veias do pescoço pulsando.

Ela se livra de uma armadilha de braços que eu havia proporcionado, joga a mão direita para o lado e a volta para o meu ventre. Segura o cós da minha calça, e repete meu gesto. Estica a mão de um jeito que a palma se insinua por meu sexo e os dedos tentam – ela tem a mão menor que a minha! – chegar ao meu umbigo.

A outra mão desmonta os botões da minha blusa e antes do fim, se enfurna pelo alto do meu estômago, afunilando-se pelo vértice dos ossos, até se expandir para tocar, de uma vez só, os dois seios. Aí ela forma uma concha delicada com a palma e a modela no contorno do seio esquerdo. Quando o dedo indicador chega ao mamilo, gemo de um jeito quase esdrúxulo, como um bicho, e sinto tanto tesão com o movimento, com essa mistura angustiante entre o carinho daquela mulher e a violação a que queria me submeter, que quando me dou conta, o volume de minha vagina e o dela se entrecruzam…

eu lembro dos cães que vi copulando pela manhã, na frente da farmácia. O olhar daquele cachorro.

Valêncio Xavier era “normal”?

Postado dia 5 de dezembro de 2008

Não.

De jeito nenhum.

Valêncio, que morreu hoje depois de duros anos convivendo com Alzheimer e outras complicações de saúde, era um camarada muito pirado.

Imprescindível, por causa disso.

Tive a honra de trabalhar com ele alguns anos e, melhor do que isso, assinar reportagens a quatro mãos que tornaram meu modestíssimo currículo um pouco mais aceitável.

Posso dizer com certeza que Valêncio Xavier é uma grande influência na minha vida. Uma das experiências de reportagem mais vívidas que guardo foi uma grande viagem, com Valêncio (e o repórter fotográfico Henry Milléo), à caça de pinturas rupestres não-catalogadas no Paraná. Tento achar aqui, para republicar, mas ainda não consegui… no arquivo online da Gazeta não está. Mas foram duas páginas com considerações impressionantes sobre a natureza LACANIANA das marcas primitivas no estado. Sim, lacanianas. Valêncio andava tão encantado com psicanálise que resolveu dar esse contorno intelectual muito suspeito para a aventura. Foi tão convincente que passou a ministrar palestras sobre o assunto para PSICANALISTAS! Lembro da frase lacônica, no meio de um pedregulho em Laranjeiras do Sul (ou algo assim): “Muito bom! Eles me dão uma porção de dinheiro para eu falar dessas coisas!”

Não dá para não gostar de um camarada assim.

Uma de nossas últimas reportagens jamais foi concluída. Tratava-se de um mapa das casas mal-assombradas do Paraná. Lu Motta era a linda fotógrafa que nos acompanhava (aqui estão os dois). Devo dizer que talvez nunca tenhamos colocado a história no papel porque, simplesmente, gastamos um tempo enorme entre os desvios de até 150 quilômetros nas rotas de reportagem: o Valêncio, um verdadeiro peixe, queria nadar em todas as cachoeiras possíveis. Vou encontrar fotos mais representativas dessas jornadas e publicar aqui. A primeira que decora esse post, eu tirei na famosa Fazenda Fortaleza, o lugar mais assombrado do mundo, segundo o próprio Xavier.

Valêncio foi cineasta, roteirista, escritor, jornalista, psicanalista bissexto e amador, caçador de fantasmas, arqueólogo simbólico, ranzinza, inconsequente, odiado pela metade dos puritanos que se levam muito à sério…  Um cara de quem sentiremos muita saudade, enfim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Valêncio gostava de acordeon e de coisas estranhas. Era um legítimo fascinado pela “verdade dos objetos”. Que tal essa capa medonha?

Podemos aposentar Woody Allen?

Postado dia 30 de novembro de 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não.

Que felicidade!

Até dá uma vontade de desistir, de vez em quando, mas Vicky Cristina Barcelona reconstrói nosso apreço.

Tem algo de velho caduco tarado no programa, mas isso também é bom. Talvez seja uma taradice quase ingênua - já que precisa ser bem inocente ou jovem demais para se espantar com mènage a trois ou outras variações saudáveis da vida. Mas não é sexo que torna VCB tão bom.

É o sexo apaixonado.

Cada um dos personagens entra e sai de cena com o corpo pulsando, louco para se engalfinhar na cama, no jardim, nas escadarias de Barcelona - ou para quebrar alguma coisa ou atirar em alguém. É um tipo de paixão palpável, colorida, um tanto suada e ofegante, capaz de te proporcionar alguma umidade ou ereção sem ao menos mostrar uma fagulha de um órgão sexual.

Os quatro principais - até a modorrenta Vicky - tremem de desejo pelos pouco mais de 90 minutos da trama. O filme é de Cristina, a merecidamente desejada Scarlet Johanson, até que Juan Antonio, o mais franco Javier Barden que você já viu, entra em cena. Você escuta ele dizer “porque você se tem em tão baixa estima?” e sai do cinema perigosamente sincero sobre suas intenções. Barden é voluptuoso, neurótico, um poço de amor e de uma sutil breguice que nos comove.

Mas é só até Penelope Cruz ser alçada do quase suidício ao lar feliz de Juan e Cristina. Desde a primeira cena, com o cabelo na frente do rosto, o torso inquieto, o olhar petrificante… uau! E olha que eu tinha desistido da Penelope Cruz. Você a quer não porque ela é bonita (não me comove, sinceramente), mas porque Maria Helena, sua passional personagem, não deixará ninguém dormir tranquilo até o fim.

Não é um filme de Almondòvar, de onde poderíamos tirar as mesmas conclusões, por isso muita gente pode assistir VCB e não abraçar tanto a causa do sexo… também temos aí a mão do velho Woody, que sempre se interessa mais pelos dramas decorrentes da atração do que pela atração propriamente dita. E isso é que torna VCB um ótimo programa. Faz mais sentido para quem experimenta tipos diversos de culpas - não apenas o desgastado drama de “oh, devo trair meu namorado?”.

Nesse sentido, embora seja bem mais leve e doce, Vicky Cristina Barcelona é um filme muito mais adulto do que o afetado Closer, por exemplo. Em VCB, sexo, qualquer sexo, é parte da vida. Closer é para nerds que dificilmente vão passar por aquilo que o filme mostra.

Eu teria alguma reserva ao personagem do velho, pai de Javier Barden, talvez influenciado pelo Paulo Camargo (mas entendo que a função dele é servir de ponte para a sedução de Vicky). O piorzinho, enfim, nem são as passagens turísticas descaradas - nós perdoamos, afinal trata-se de Barcelona e alguém precisava pagar pelo filme -, mas um certo clima de amor ao empoeirado, típico do Woody. Sou solidário quanto à trilha sonora (não há música datada), mas meio que estou cansado dessa conversa de que fotografia boa é aquela do estúdio com químicos e varais lotados de copiões. Tento acreditar que essa ingenuidade só está no roteiro para justificar a deliciosa cena de beijo entre Penelope Cruz e Scarlet Johanson - a loira está lotada dos trejeitos do Woody; Scarlet é seu consolidado novo alter-ego. Ela é a mulher que espera um homem que use a cueca certa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu sei como esse cara se sente. Às vezes, quando eu danço, dizem que eu tenho dois pés esquerdos!

Musicais perderam o sentido?

Postado dia 12 de novembro de 2008

Não.

E quero indicar dois filmes com Fred Astaire.

Primeiro, uma questão de delimitação: prefiro chamar de “musical” o gênero cinematográfico em que as pessoas dançam e cantam “naturalmente” no enredo. A música é estrela principal. Não é simplesmente um comentário sonoro ou a ilustração de passagens biográficas. Por isso, eu não considero Johnny & June, Ray, La Bamba, etc., filmes “musicais”: são dramas biográficos sobre celebridades musicais.

Também parecerei ainda mais velho e ranzinza, como os camaradas da ESPN que lamentam o fim do futebol há vinte anos, mas tenho dificuldade em listar filmes contemporâneos. O tempo realmente prova alguma coisa sobre a arte, especialmente no seu papel influenciador. Não tenho medo de dizer que as obras ganham significado com o tempo, com a literatura produzida sobre elas, com o consumo compartilhado que enriquece nossas leituras. Não acho que, sozinho, o espectador possa aproveitar plenamente o prazer de assistir um filme.

Essas indicações também parecerão óbvias. A necessária leitura original sobre filmes especiais não pode cair na ingenuidade de desprezar os cânones. É até legítimo que alguém goste, sei lá, de “Dançando no Escuro”, mas é uma tremenda falta de conhecimento técnico e sensibilidade estética dizer que o melodrama do Lars von Tryer é melhor que “Cantando na Chuva” ou “Cabaret”.

Vejamos:
Dos nove filmes produzidos por Pandro Berman, a maioria dirigido por Mark Sandrich, coreografado por Hermes Pan e todos estrelados por Ginger Rogers e Fred Astaire, eu escolheria dois:

O PICOLINO (Top Hat, 1935)

RITMO LOUCO (Swing Time, 1936)

A forma como essas nove pérolas dos anos 30 foram levadas a cabo é um caso a ser mais seriamente analisado pelos estetas, principalmente aqueles que ainda acreditam na soberania do “autor”.

O “autor” aqui, definitivamente, não é o diretor. É Astaire, um sátiro elegante e sem sexo deslizando “seis ou sete” números por filme. O ator chegou a construir um diagrama para orientar o roteiro de cada película, com porções matematicamente definidas para as cenas de romance, ação, comédia e dança. A história era basicamente a mesma, assim como o elenco de apoio: Astaire encontra Rogers, se apaixona e a corteja, ela o repudia, ele dança, ela dança, há uma confusão de identidades, e no final eles dançam de novo. Normalmente tem um mordomo (Eric Blore) de comentários venenosos que desafia o patrão atrapalhado e sexualmente carente (Edward Everett Horton). E uma coadjuvante um tanto histérica ou blasè que serve de confidente para Rogers ou esposa de Horton (Helen Broderick).

São todos iguais? Sim e não. Cada um deles é especial e acho que podemos encará-los como uma investigação realmente autoral de uma possibilidade, de um tema. Em proporções obviamente diferentes, Astaire fez da parceria com Rogers o que Monet fez a partir do lago com nenúfares ou da Catedral de Ruen.

Fred Astaire impedia os diretores de usar cortes ou edições nas cenas de dança. Ele considerava um desrespeito com o espectador privá-lo do corpo todo dos bailarinos e do tempo correto dos números. Li numa das coletâneas do crítico Roger Ebert que, velhinha, Ginger Rogers reclamou de “Embalos de sábado à noite” por causa dos planos picoteados e próximos “demais”. “Esses jovens acham que podem dançar com os olhos”, ela teria dito.

Em Picolino, além da maravilhosa música de Irving Berlin, aproveitamos os cenários art-decò e o charme delicioso de Rogers, uma mulher de personalidade forte e sexy appeal injustamente desvalorizado. É quase consensual que não havia erotismo na relação entre os dois, mas a competição e a nítida admiração mútua provoca um frisson que gela nossa barriga. É quase sexual.

Antes de entrar em cena, o casal ensaiava literalmente até os pés sangrarem. A própria Ginger talvez seja um pouco responsável por ser menos valorizada do que Astaire. Ela queria ser uma atriz “séria” e evitava a todo custo ser rotulada como atriz-cantora-dançarina, muito embora, nas palavras da própria, “eu fazia o mesmo que Fred, só que para trás e de salto”.

Veja a garota fazendo o “reverso em agulha” depois de convencer a todos - diretor, coreógrafo e o próprio parceiro - que aquele extravagante vestido precisava ser usado em cena, mesmo que, décadas depois, a gente fique prestando atenção às plumas voando pela pista (ah, sem falar que estamos ouvindo Cheek to cheek, uma das maiores canções de todos os tempos!). Em tempo: Astaire se opôs fortemente ao figurino, mas, depois da estréia, mandou uma jóia de presente para a colega, acompanhado de um bilhete onde se lia: “você tinha razão”.

Ritmo Louco, que foi dirigido por George Stevens (Assim Caminha a Humanidade, Um Lugar ao Sol), é o favorito de alguns críticos, mas eu divido esse amor com Top Hat. Ainda assim, talvez o cinema não tenha nos proporcionado uma cena tão deliciosa quanto o número Pick Yourself Up, que abre o filme: Astaire, flechado pelo cupido, segue Rogers até a academia de dança em que ela leciona. O mancebo finge que é um descordenado e faz a garota amaldiçoar a própria profissão: “eu não conseguiria lhe ensinar nada nem em um milhão de anos”. O mau-humorado patrão de Rogers (aqui Eric Blore não é mordomo!) vê isso e a demite. O resto, você imagina. Começa com algo como “espere, acho que aprendi alguma coisa…” Ou melhor, nem imagine:

Depois, entre outras felicidades, ouvimos Fred cantar The way you look tonight para uma zangada Ginger, trancafiada no banheiro. Na primeira nota, já dá vontade de chorar de alegria.

Ah, e aqui vai a arrepiante capa de disco esquisita do dia:

Capas de discos saíram de moda?

Postado dia 11 de novembro de 2008

Não.

Mudaram de status, digamos assim. E todos nós temos as capas favoritas; alguns inclusive voltaram a comprar vinil porque sentiam falta daquela dimensão colorida nas mãos.

Eu adoro capas - e, num momento de lirismo, apontaria dezenas de capas produzidas por Alfred Lion e Francis Wolf para a Blue Note. A must see!, como diziam antigamente sobre certos filmes.

Mas geniais mesmo são as capas que deram terrivelmente erradas. São estranhamente atraentes, às vezes menos pelo resultado final e mais pelo enigma que é a sua concepção. Você fica matutando: o que diabos passava pela cabeça das pessoas que produziram essas capas?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Só que essa capa é uma categoria meio auto-depreciativa, irônica, tem uma certa dignidade auto-destrutiva. Com certeza, antes de aprovar, a cantora não olhou bem o lay-out da capa a seguir:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E tem a contracapa:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quais são as suas favoritas?

Precisamos de “paciência” com a intolerância?

Postado dia 7 de novembro de 2008

Não.

Posso ser um admirador da ironia, mas não me considero cínico. Por isso estou muito feliz com a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos. Como muitos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Certamente os mais realistas não esquecerão que, na prática, as políticas dos EUA para o mundo não mudarão grande coisa. No fundo, democratas e republicanos dizem coisas muito parecidas.

Mas Obama é negro.

E ele pode cumprir um notável ou esquecível mandato, deixar os Estados Unidos exatamente como estão ou até mesmo piorá-lo. Mas, nos três dias que sucederam o anúncio de sua vitória, a questão racial avançou o equivalente a décadas.

Simplesmente porque uma família de negros vai ocupar a Casa Branca. A partir de agora, quando alguém falar em “homem negro”, dificilmente desviará da imagem de Barak Hussein Obama, um dos homens mais poderosos do mundo - e o mais poderoso eleito democraticamente.

Nossa geração é privilegiada. Assistiu à eleição de Lula, um operário, como presidente de um país dominado pelo coronelismo por séculos. Pode ver e ouvir, da boca de um homem negro, ao vivo, o primeiro minuto de um discurso que vinha com essa frase: ” It’s the answer spoken by young and old, rich and poor, Democrat and Republican, black, white, Hispanic, Asian, Native American, gay, straight, disabled and not disabled”.

Ou seja, o presidente eleito norte-americano colocou pobres, velhos, gays, hispânicos, asiáticos e portadores de deficiência na sala de frente de um discurso que, por contingência e oportunidade, será lembrado para sempre. A clareza com que pronunciou as palavras (especialmente “gay” e “disabled”) é uma fuga corajosa daquele método em que as posturas polêmicas são escondidas por metáforas, suavizações e endereço remoto na fala.

Intolerância

O preconceito de raça e gênero se sustenta, ainda, por uma política de naturalização. Vem afiançada, com frequência, pelo discurso religioso e mesmo pela ignorância referencial dos milhares de professores e pais que formam as sucessivas gerações.

Recebi uma “webcorrente” de extraordinária tolice, esses dias, e como um dos propositores é meu aluno, chameio-o e entrei em uma discussão que demorou uns quarenta minutos. O email pedia para que as pessoas boicotassem e se esforçassem para pressionar alguma agência misteriosa a impedir a exibição de um filme em que Jesus Cristo é imaginado como homossexual.

Não duvido que, se esse filme existir, possa ser de mau gosto ou meramente apelativo. Mas se gosto fosse critério de censura, eu teria o direito de solicitar o fim dos filmes envolvendo o Padre Marcelo e o fechamento de 90% das bandas gospel. Não por causa da mensagem desses produtos - tão boas ou ruins quanto quaisquer outras - mas pela evidente pobreza estética, barateamento filosófico e oportunismo.

Depois, os cristãos têm todo o direito de não assistir o filme em que Jesus é gay. É ato fascista tentarem impedir outras pessoas de assistirem.

O que mais me assusta é que, no relicário de destinatários da corrente há professores universitários. Será que não percebem a homofobia que pauta a mensagem? Ou será que consideram a homofobia um dever religioso? É uma escolha entre ignorância e maldade.

Obviamente é nossa obrigação civil não apontar o dedo para as escolhas religiosas pessoais. Cada um faz o que quer da sua intimidade. Pode acreditar em Deus, Baal, na Grande Abóbora Celeste, no Velho Testamento, em Joseph Smith, no Exu Veludo ou em uma Família de Nabos Dançarinos. Desde que você não mate, prejudique, oprima ou humilhe os outros em nome da sua crença.

Da mesma maneira, seria elegante que parasse de se meter na vida sexual dos outros. Vai que Jesus realmente era gay? Os (duvidosos) documentos bíblicos nunca disseram o contrário… (apenas supõe-se que Ele não casou e que vivia cercado de uns caras apostólicos). Se Jesus fosse gay, amigo, você deixaria de gostar dele?

**

Ah, a partir de hoje vou colocar uma capa de disco estranha por edição. Algumas do setor gospel são sensacionais. Como essa,

Pobres são culpados pela própria sorte?

Postado dia 28 de outubro de 2008

Não.

E esse é um dos discursos mais comuns para aqueles que se inspiram no próprio conforto para julgar os outros.

No último domingo, 26 de outubro, a Gazeta do Povo publicou uma reportagem que, de certa forma, desenvolvi ao longo de nove anos. Trata-se da trajetória de uma família para a qual as coisas definitivamente não deram certo - e quando falo em família, me refiro a combinações que não se limitam aos que moram na mesma casa (ou na mesma calçada, como está acontecendo). Algumas dessas pessoas tentam melhorar, trabalhar, se ajustar àquilo que os protagonistas de telenovelas consideram “ser de bem”. Não dá para dizer que o governo (federal, pelo menos) não se esforça. Mesmo assim, a vida de crianças como Pâmela não aponta para um futuro brilhante na passarela do Crystal Fashion ou, mais modestamente, livre de doenças e exclusão.

O jornalista Mauri Konig retomou a edição da matéria e pediu para que eu completasse os dados. Nos próximos dias, a Gazeta deverá publicar a segunda parte, com um diagrama mais atento ao Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Por causa da edição e das características do próprio jornal, a reportagem original foi ligeiramente modificada. A seguir, a versão “B”. Há ainda uma C, mais “agressiva”, que publicarei daqui a alguns dias. A versão da Gazeta:

 http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=821436&tit=A-vida-Perpetua-de-Pamela

As fotos da matéria são de Henry Milléo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A vida Perpétua de Pâmela
Reportagem acompanha família por nove anos; na contramão dos índices favoráveis da economia, situação das filhas de Perpétua só piorou

Do final da década de 90 para cá, pelo menos 14 milhões de brasileiros “saltaram de faixa social”, conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). A evidente ampliação dos programas sociais do governo federal, através de projetos como o Bolsa-Família e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), e a repercussão nos Estados, como a Tarifa Social de Saneamento e a Luz Fraterna no Paraná, estão ajudando a transformar o Brasil, pela primeira vez, em um país de classe média. E os observadores internacionais elogiam o crescimento quase todos os meses.

 

Mas a história a seguir mostra que o próprio acesso aos programas sociais tem um longo caminho de aprimoramento. Melhorar de vida não é o caso de famílias como a de Perpétua de Fátima Almeida, moradora de uma favela em Ponta Grossa, no centro-sul do Paraná.

 

Em dezembro de 1999, a Gazeta do Povo visitou a Vila Nova, onde moravam os Almeida, e conhecemos Pâmela. Ela nascera havia dois dias e era a protagonista de uma matéria sobre crianças que não tinham registro de nascimento por conta das altas taxas dos cartórios – R$ 20 pela certidão, que a lei assegurava gratuita, mas cobrada, segundo um cartorário da época, por causa “da qualidade do papel”.

 

A mãe da menina, Perpétua, ainda decidia o nome da sexta filha. Sofria com falta de água potável, violência na vizinhança e o constante desemprego. A chuva enlameava o chão sem piso da sua casa.

Em abril de 2008, com 35 anos, Perpétua já era mãe natural 11 vezes e ainda adotou D., garota de rua que engravidou aos 15. Três filhos morreram, o último aos quatro meses, sofrendo de bronquite crônica. “Coloquei o tapete por causa da minha doença e a das crianças”, conta, puxando a cobertura lanuda e encardida, “mas não adiantou”.

 

Ainda não há água no barraco de dois cômodos. A diferença é que agora a Sanepar envia mensalmente a conta que chega a R$ 82,00. A companhia cortou o fornecimento em setembro de 2007, por falta de pagamento. Na véspera do ano novo, foi interrompido no cavalete, em represália a uma ligação clandestina. Viúva – e, portanto, chefe da família –, Perpétua não conseguia pagar os R$ 143,98 em dívidas e multas. A mãe de Perpétua, que morava com a família, morreu de hepatite há poucos meses.

 

A reportagem da Gazeta do Povo voltou à Vila Nova, em setembro, para reencontrar Perpétua e sua prole. Ela havia “fugido para o mato”, segundo a nova moradora do casebre, Ilda Conceição da Silva, 32 anos, a irmã de Perpétua. Viciada em crack, a mãe de Pâmela vendeu quase todos os objetos que possuía e mandou os filhos para casas de assistência. No dia 24 de setembro, a assistente social responsável pelo caso procurava a família. Seis das filhas fugiram dos dois abrigos (Casa Santa Luiza de Marilak e Associação de Promoção à Menina) para se juntar às demais – a caçula tem cinco anos. E., aos 14 anos, está grávida de um policial. Para piorar, há indícios de que as duas meninas mais velhas estavam se prostituindo e levando o dinheiro para Perpétua, o que lhe vale, no momento, citação judicial. Perpétua também cedeu à prostituição.

 

A história das Almeida cruza com a de Ilda, cega por causa de um duplo derrame ocular desde os 23 anos e vítima regular de convulsões. Seu marido não consegue manter emprego por causa das várias doenças que contraiu durante o trabalho infantil. Desde os oito anos, Idevan Francisco, 32 anos, “lida com serrarias”. Na manhã em que a Gazeta visitou a família, Idevan tentava vender alguns pneus velhos pela Vila Nova. “O rim dele secou por causa da serragem”, lamenta Ilda, que mostra as diversas receitas médicas. Na somatória, o custo do medicamento passa de R$ 400,00 por mês – a não ser que a Saúde Pública forneça todos os remédios, o que raramente acontece. Segundo Ilda, a única fonte de renda fixa é a aposentadoria por invalidez: R$ 415,00.

 

Mas ainda há os dois filhos, de 14 e 12 anos. O primeiro possui transtorno bipolar – e o histórico com crack contribuiu para que fosse expulso de três colégios diferentes. O caçula seguiu os passos do irmão e hoje está ainda mais comprometido pela droga. A mãe, mesmo cega, está conseguindo tirar os dois filhos do vício e do tráfico. Um carro da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Estadual de Ponta Grossa vai todos os dias buscar os irmãos para atividades artísticas e profissionais. O primogênito, excelente desenhista, é autor da capa de um livro didático distribuído por todo o município. Ilda protege os dois como pode. “Quase todo dia eu preciso expulsar a piazada que vem aqui trazer droga. Eles já viram que sou muito braba”.

 

Por enquanto, a família de Ilda se serve de uma bica que fica em frente ao terreno, o que explica a desenteria que constrangeu o filho mais velho durante a visita da reportagem. Laudo de pesquisadores da UEPG aponta a contaminação da água.

 

Nem a família de Perpétua nem a de Ilda aproveita qualquer um dos programas sociais do governo – Bolsa-família, Peti, Tarifa Social, Luz Fraterna, Vale-Leite – apesar de apresentarem evidentes condições para receber os benefícios.

Por quê?
 “A reportagem prova que, em parte, o Estado fracassou”, admite o gerente comercial da Sanepar, Natálio Stica, “mas não podemos ser simplistas”.  Para Stica, tampouco a culpa é da própria Perpétua. “É nítido que a exclusão prejudica até o ânimo das pessoas”. Stica acredita que a baixa qualidade de vida de crianças como Pâmela está relacionada com “a falta de discussão dos problemas realmente importantes”. Por exemplo, “parece que os políticos e a própria sociedade não estão dispostos a falar de um programa sério de laqueadura”.

 

Perpétua teve onze filhos porque esse foi o número de tentativas para parir um menino. Ao ganhar o garoto, fez a laqueadura. Mas se arrependeu, pois a criança morreu quatro meses depois e a operação rendeu à mãe “machucadura na coluna e hipertensão”. Para Fátima Freitas, mestre em Antropologia pela UFPR, “Perpétua tem o direito de querer os filhos e o Estado tem obrigação de oferecer qualidade de vida para todos”.

 

A “ausência do Estado” é consenso entre a presidente do Conselho Regional de Serviço Social, Jucemeri Silveira, e o coordenador estadual do Bolsa-Família, Nircélio Zabot. “Nunca houve evolução tão grande na assistência social do país”, pondera Nircélio,  ao explicar a função dos Centros de Referência (Cras), responsáveis por concentrar a assistência social nas próprias comunidades, “mas falta reunir informações”.

Um bom começo seria a unificação dos cadastros relativos aos diversos programas sociais. A assessora técnica do Peti, Carmen Zadra, resume a deficiência: “Os cadastros não conversam entre si”.

 

O problema também está na ponta da distribuição dos recursos. Como o Brasil adota uma política de municipalização, orçamentos como o do Bolsa-Família e outros programas (R$ 33 milhões para 447.797 famílias paranaenses, em setembro) acabam dependendo da precária organização de grande parte das prefeituras – e, pior que isso, sujeitos a desvios e mau uso. “No nível do município, é mais fácil para os políticos aproveitarem os recursos como instrumento de favor eleitoral”, explica Jucemeri Silveira, “o que leva ao pior tipo de miséria, que é a subalternidade e ausência de protagonismo”. Ou seja, a dependência do assistencialismo.

Nem de longe
O leitor pode acreditar que a família de Perpétua é um caso extraordinário de exclusão. “Não é, nem de longe, a pior coisa com a qual lidamos”, lamenta a assistente social Maria Fabiana Franke, do Conselho Tutelar de Ponta Grossa. Dados do Ipardes mostram que 40% das famílias do Centro-Sul vivem com até meio salário mínimo por mês. E olhe que a região nem é das mais pobres do Paraná.

 

O Estado se empenha para melhorar o quadro. O número de cidadãos atendidos através do programa Tarifa Social, do governo estadual, por exemplo, passou de 8 mil para 1 milhão. Pela Tarifa Social, os inscritos pagam R$ 5,00 mensais por 10 mil m3 de água. Quase 224 mil famílias são isentas de pagamento da conta de energia elétrica, beneficiadas pelo programa Luz Fraterna.

 

Mas o próprio tamanho da família limita os benefícios. É o empecilho para o pedreiro Júlio César Alves Rosa, do Jardim São João Del Rei, em Curitiba. Na sua casa de 30 m2 moram 11 pessoas. A energia vem direto do poste, por uma ligação clandestina. Os Rosa não conseguem manter o gasto de luz mensal abaixo dos 100 kilowatts-hora, limite necessário para garantir o benefício do Luz Fraterna. Um banho de 15 minutos custa cerca de R$ 0,53. Ou seja, se cada membro da família tomar um por dia, em um mês serão necessários quase R$ 175. O “gato”, de qualquer modo, não resolve o problema. O chuveiro queimou há meses e o pessoal do Júlio César tem esquentado a água no fogão a lenha.

 

Se não fosse o chefe de uma família habituada a banhos, Júlio César teria se enquadrado: o lar sobrevive com renda menor que R$ 100 por pessoa, a ligação de luz na sua casa é monofásica, ele está inscrito em programas sociais públicos, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Vale Gás ou Bolsa Família e tem o Número de Identificação Social (NIS).

 

Emerson Cervi, doutor em Ciência Política e professor de Sociologia da Unibrasil, em Curitiba, lembra que a situação social brasileira “apresenta sinais de melhora”, mas está longe do ideal. Cervi aponta que o Bolsa Família proporciona resultados significativos para crianças entre zero e seis anos, o que resultará em condições melhores para filhos e netos dos excluídos. “A questão é como incluir gerações adultas. Para isso, nem Estado, nem sociedade brasileira conseguiram encontrar solução”.

Família
Em abril, ao encontrar a reportagem quase nove anos depois, Pâmela agitava no ar a certidão de nascimento, em um movimento claramente ensaiado por Perpétua. A menina ganhou nome em fevereiro de 2000. Do outro lado da rua, acompanhado de um palhaço, um candidato já fazia campanha eleitoral para a prefeitura de Ponta Grossa, distribuindo refrigerantes e saudando a população. Ele era o prefeito em dezembro de 1999 e, segundo as pesquisas, o favorito para a eleição de outubro.

 

“Você gosta de morar na Vila Nova?”, perguntamos para Pâmela, de olhos grandes e pouquíssimo cabelo, cujos fios ganham volume de novo depois da temporada de piolhos. “Gosto, sim”. Aqui, no lugar em que a vidas de Perpétua e suas filhas só pioraram? Onde crianças de cinco anos aconselham o repórter a ir embora antes de anoitecer? Pâmela gosta da Vila sombreada pelas costas de um Hospital Infantil. “É porque a minha família mora aqui”.

Victor Folquening, especial para a Gazeta do Povo.

Viajar é fugir?

Postado dia 26 de outubro de 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não.

Embora essa conotação seja óbvia e até declarada em várias das viagens que povoam a nossa imaginação.

A chefe de família especialista em sanduíches com bandeirinhas, interpretada por Cher, leva as duas filhas (Wynona Ryder e Christina Ricci, crianças!) de uma cidadezinha a outra até ser fisgada por Bob Hoskins no clássico de Sessão da Tarde Minha Mãe é uma Sereia (Mermaids, 1990). Ela foge dos relacionamentos infelizes.

O pai de J. M. G. Le Clézio, premiado com o último Nobel de Literatura, realmente abandonou a Europa e se enfiou, como médico, nas imensidões sufocantes de Camarões e da Nigéria, memória narrada pelo seu filho em O Africano (Cosac & Naify, 2007). Ele foge da guerra.

Você já fugiu?

Eu fugi, literalmente, várias vezes, e acho que comecei minha carreira de fugitivo ali pelos cinco anos, durante a inauguração do Supermercado Tuma no Jardim Residencial Santa Paula. Era 1978 e a Santa Paula tinha o apelido de Santa Poeira. Sem nenhum tipo de calçamento, tínhamos que deixar o ônibus vermelho na altura do Castelinho, uma construção fascinante e decadente que eu viria a descobrir se tratar de um bordel, quando a chuva enlameava as encostas onde o governo militar construiu as casinhas de 28, 32 e 47 metros quadrados.

Para piorar, morava no final de uma das últimas ruas, Pitangueira, de modo que era preciso subir o morro e descê-lo novamente numa espécie de pântano salpicado de concreto barato.

Mas na ocasião da estréia do mercado, tudo parecia grandioso, do céu chumbado e úmido ao vento robusto, se enfiando pela gola e mangas da camiseta. O que deveriam ser dezenas, na minha memória parecem milhares de pessoas desafiando a ameaça de tempestade em troca de ver os balões e palhaços que coloriam a festa.

Minha mãe gritava, chorava e já naquele tempo convivia com a sombria expectativa quanto aos ladrões de crianças. Eu simplesmente tinha me desgarrado e segui um grupo de pessoas que avançava para um lado da vila que era um completo mistério para mim, um mistério sedutor, amedrontador e, por causa disso, elétrico. Meu mergulho no coração das trevas durou uma quadra ou uma quadra e meia, até um samaritano alertar, no meio dos indistintos, “aquele lá não é o piá que a mulher tá procurando?”.

Um ano depois, me senti a vontade para cumprir um destino que me parecia evidente desde que cheguei à Santa Poeira. Havia observado, estudado e até cronometrado (pelo instinto) o comportamento do meu veículo de fuga. Já não morávamos na rua Pitangueira; agora ela se chamava Guabirobeira, um nome educativo, uma vez que lhe obriga a decorar um polissílabo e entender um tanto de botânica para simplesmente contar onde você mora. Meus planos de fuga, por essa época, eram superestimados – e minha família construíra uma imagem errônea a respeito de meus desejos ultramarinos. Talvez porque já havia me aventurado tantas vezes nas manilhas parcialmente cobertas dos buracos que margeavam as ruas ou porque o matagal que até hoje limita a Santa Paula brilhava feito o espaço sideral na minha imaginação. Por essas e outras, eu era vigiado de perto.

Uma das minhas primeiras fugasMas aquele plano era para valer e eu o executei depois de ter adiado por duas ocasiões; as duas malogradas pela minha mãe, que insistia em interagir com o veículo de fuga, dificultando minha ação de clandestinidade. Naquele dia, ela não saiu para comprar laranja e eu pulei na kombi e pedi ao homem do microfone que me levasse até a outra esquina, pelo menos. Ele surpreendentemente deixou e mais, me permitiu realizar um sonho que considerava inatingível: entoar o chamado que hipnotizava as mulheres de todos os lugares, obrigando-as a correr atrás do carro com tanta avidez que, na ânsia de tocá-lo, ainda ofereciam dinheiro!

Minha mãe já dera por minha falta e, no seu estilo desesperado, gritava por mim aos prantos. Conseguiu descobrir onde eu estava quando, ao interpelar uma vizinha, ouviu um eco vindo da quadra logo ao lado. “Essa voz não é do Victor?”, disse a Dona Cláudia. Era. E eu dizia: “Está passando o carro que vende laranja lima, mimosa, tudo de primeira qualidade. Mulher bonita não paga… mas também não leva!” (o que verdadeiramente me fascinava era essa última frase, que nos meus cinco ou seis anos parecia de um humor tão sofisticado que provocava inveja).

Nesse ano eu conheceria o Benett, com quem empreendi diversas missões justamente para aquela franja verde luxuriante e assombrosa que se constitui, até hoje, num pedacinho de floresta aos pés da Santa Poeira. Uns dois anos depois, nós tivemos a coragem de a) roubar uma faca do avô do Benett, o seu Olívio (que, na verdade, se chamava Benedito); b) arrumar umas cordas no armazém da Dona Maria; c) (essa foi a parte mais assustadora) preparar a comida estrambólica que levaríamos na expedição.
O que procurávamos?

Macumba.

Queríamos encontrar coisas que nos provocasse medo. Atravessar córregos, explorar pedaços virgens do mato, nos orientar pelo sol ou pelas marcas centenárias (?) das árvores… macumba era o topo da aventura, era o prêmio máximo para nossa ousadia, a promessa de um elemento que nos fizesse passar alguns dias sem dormir, olhando pela fresta da janela em direção do mato, esperando que uma luz tênue se aproximasse, ambígua, para talvez recuperar um artefato sagrado que teríamos pilhado.

No momento, não consigo encontrar utilidade para a faca ou para a corda – mas a emoção de portá-las era palpável e isso bastava. De qualquer maneira, aquilo que chamávamos de “macumba”, sem ter muita idéia do que significava, nunca nos deu a gentileza de aparecer. E percebemos, umas dez expedições depois, que seguíamos sempre o mesmo caminho – que se constituía, de fato, em um carreirinho usado por muitos dos moradores do Sabará, bairro que se erguia numa das colinas marginais.

À medida que crescíamos, a rota do matagal era cada vez mais insuficiente e, já lá pela quarta série, chegamos a uma rua vicinal que se consolidava em estrada e terminava na rodovia cortante do bairro Nova Rússia, uns dez quilômetros longe de casa. Quando isso ocorria, nossa pressa se transformava em angústia, o céu se cobria de nuvens escuras e, ali pela sete da noite, num mundo em que celular era objeto de ficção científica (eu não tinha nem telefone fixo. Usávamos o da Dona Cláudia), minha mãe e a Dona Odília, avó do Benett, se esgoelavam pelas ruas esperando o momento de se depararem com nossos restos mortais.
No próximo post eu continuo… A foto p&b é de uma fuga já remota, no casamento do meu tio materno mais velho. Eu perseguia um gato, animal que sempre me fascinou porque é um grande fugitivo. A foto ao lado é de uma tarde no campo com meus pais e meu irmão, aquele pedaço azul e branco no colo amarelado de minha mãe. Meus braços cruzados indicam descontentamento com uma fuga frustrada. Além disso, até hoje não entendo porque todos sentavam naquela raiz protuberante e se sentiam firmes, seguros, enquanto que eu escorregava o tempo todo… Nesse fértil período da minha existência percebi que os objetos caem sozinhos perto de mim e as árvores tomam “atitudes” para me prejudicar.

Fanáticos por bandas são saudáveis?

Postado dia 10 de outubro de 2008

Não.

Nem fanáticos por qualquer coisa. Religião, esporte ou gravatas-borboleta.

Quem é você para dizer uma coisa dessas? Eu me fiz a mesma pergunta e procurei especialistas para entender se minha opinião não era mero preconceito.

A consulta foi motivada pela repercussão da matéria do Benett sobre o show do Scorpions em Ponta Grossa, publicada pela Gazeta do Povo e republicada no blog Novos Seriados, aqui na 91 Rock.

Se o leitor acompanhou o post, deve ter percebido a enxurrada de mensagens furiosas, acusando Benett de não conhecer nada de música, humor ou afinidades sexuais, entre outras considerações pouco elogiosas. E olhe que o texto é simpático à banda – a ponto de tratá-la com afeto e nostalgia.

A reação de alguns devotos foi tão agressiva que me senti obrigado a ofender meus próprios princípios e moderar as mensagens (o que pode ser interpretado, sem erro, como censura). O conteúdo desses comentários é fascista, para dizer o mínimo, e ponderei que dar espaço para gente preconceituosa é ajudar na sua glorificação.

O tema do fanatismo sempre me intrigou, especialmente entre gente que freqüenta ou freqüentou faculdade, tem emprego fixo e não sofre perseguições raciais ou sexuais.

No primeiro ano que dei aula para Jornalismo, em 1997, havia uma aluna que era “apaixonada” pelo jogador Edmundo. Os outros alunos me alertaram, mas é óbvio que não levei a sério.

Num belo dia, comecei a usar os crimes do Edmundo como exemplo (imprudência no trânsito que ocasionou a morte de passageiros que seguiam com ele, conforme me corrigiu o leitor Murdock) e a infeliz começou a chorar e gritar! “É mentira! Vocês não sabem como ele é uma pessoa maravilhosa!” Soube de várias de suas peripécias para “entregar um bicho de pelúcia” para o hoje quase-aposentado jogador do Vasco.

Recentemente, em Curitiba, um grupo de adolescentes fez uma passeata para protestar contra o fim da banda RBD! Uma aluna (de curso superior) faltou muitas aulas porque se “comprometeu” a ir a todos os shows da última turnê da dupla Sandy e Jr!

Adultos com nível superior que brigam por causa de times de futebol são outra categoria estranha. Sofro muito com qualquer modalidade esportiva, especialmente quando Operário ou Flamengo, que são meus times prediletos, estão jogando… mas considero inacreditável me indispor com alguém que torça para outra equipe ou contra a minha. Da mesma maneira que é difícil acreditar que o membro efetivo de uma torcida organizada é uma pessoa plenamente bem resolvida.

Pois bem: mostrei o texto do Benett – Scorpions e os Exércitos da Noite – para o escritor, professor e doutor em Psicologia César Xavier, além de algumas mensagens publicadas – e outras impedidas por mim – no blog Novos Seriados. Leia aqui trechos de alguns textos “censurados” lá:

“VICTOR, NACIDO EM 98, BENRTT, NACIDO EM 99,MEU DEUS NÃO LAVA NEM A BUNDA E EU DANDA MORAU.VC NÃO é~NINGUEN VA FALAR D XUXA ELIANA SÕ PODE SER FÃ RBD”. (O autor se chama Alex).

“O problema desse cara é falta de pica, hUASHUahsuHASUhasuha” e “Ah, aproveitando, avisa pra tua mãe ir se ajeitando que eu passo ai mais tarde” (essas são da sofisticada pena de alguém que assina Lucas Matos).

Aqui vai o que pensa o psicanalista César Xavier a respeito de tão fecundas participações: “Fanatismo é uma patologia e recorre em uma das piores coisas da vida, que é o erro de interpretação: aquilo que é pequeno, o fanático enxerga muito grande e vice-versa. Enrijece uma única forma de percepção do mundo. É como se ele visse um filme e parasse em um fotograma, cristalizando o filme sem perceber que continua rodando”.

Um desses sujeitos nervosos pode alegar que o “imbecil” e “ignorante” doutor César não passa de um cara conservador, fechado num porão com uma lâmpada tremeluzente e seus livros empoeirados.

O César é um fã ardoroso do tipo de som que os aficcionados do Scorpions adoram. Suas bandas favoritas são de hard rock de estrada – ZZ Top, Steppenwolfe, Almann Brothers, Credence Clearwater Revival – talvez para acompanhar o estilo de vida: ele é orgulhoso proprietário de uma Dragstar; guarda-pó branco está fora de seu guarda-roupa, basicamente formado por jaquetas e coletes de couro.

Ou seja, parece um integrante do Scorpions!

Vamos pegar uma segunda opinião, a da psicanalista Carla Françoia:

“O fanatismo tem a ver com o narcisismo, isto é, o fanático é aquele que se aliena em algum discurso ou em alguma coisa, pois isto o constitui enquanto ser, pessoa mesmo. E daí, quando vem alguém e fala mal, critica esse alguém ou essa coisa da qual o fanático está alienado é o mesmo que falar dele. É como se estivessem cortando um pedaço do seu corpo e isso gera dor, logo agressividade. Mas, é bom salientar que é preciso um quantum de falta de uma boa estrutura psicológica para se entregar a isso na vida adulta enquanto que adolescentes e imaturos sempre caem nesse engodo.”

Carla é uma tia da academia, que não sabe nada de sexo, drogas e rock’n’roll? Carla pratica boxe e sua tese de doutorado é sobre erotismo no Marquês de Sade. “Eu adoro o tema da orgia”, diz, com simplicidade, a professora-pugilista.

Bom, digam-me: quem tem mais atitude, nossos amigos aí de cima ou os caras que brigam porque o amor dói, sofrimento que não passa nem quando sopram os ventos da mudança? Paixão é uma coisa bem diferente de obsessão; comportamento doentio sequer tem a ver com o produto que é adorado e defendido como um deus. No fundo, para quem é desequilibrado, Edmundo, Sandy e Júnior, Rebeldes, Atlético, Coritiba, o Sindicato dos Professores e Scorpions têm exatamente o mesmo valor.

A ironia morreu? (Trovão Tropical e Scorpions em PG!)

Postado dia 26 de setembro de 2008

Não.

Mas temos que lutar bravamente.

Mais de um pensador mal humorado chegou à conclusão de que falta de senso de humor indica falta de inteligência. Num tempo em que “intelectuais” querem reduzir tudo à pobreza do politicamente correto, às vezes você tem a sensação de que deveria se desculpar por praticar ironia.

Se isso realmente acontecer, é o fim da civilização.

Deixar gente sem senso de humor decidir o que é “ético” ou de “bom gosto” é o mesmo que escolher um bode para cuidar dos repolhos. Curve-se à vigília moralista das pessoas que se levam demasiado a sério e logo teremos censura como norma por aí.

Digo isso por causa de dois momentos diferentes das últimas duas semanas. Um deles foi assistir ao divertido Trovão Tropical, do Ben Stiller. O outro, a repercussão da brilhante matéria do Benett, na Gazeta do Povo, sobre o show do Scorpions na nossa terra natal, Ponta Grossa.

Um grupo articulado de devotos tentou impedir que Trovão Tropical passasse no Brasil pois, segundo esses bem-intencionados cuidadores de nossas almas, o filme ofendia as pessoas portadoras de deficiência. Especialmente os com síndrome de Down.

Ora, qualquer um que veja o filme sem uma pedra na mão percebe que a gozação não é sobre os deficientes; é sobre aqueles que se aproveitam dos deficientes. O roteiro ironiza claramente o uso desses estereótipos no cinema. E veja bem se não estou sendo muito agressivo: quando você tira sarro de alguém que se aproveita das limitações de outras pessoas, não é engraçado que apareçam sujeitos que lucrem, passando por grandes humanistas, defendendo os deficientes? Quem o filme ironiza? Justamente os camaradas que irão se insurgir contra ele.

Ou seja, moralistas quase sempre não passam de demagogos.

Sobre o texto do Benett. Alguns leitores mandaram cartas para a Gazeta xingando e dizendo sentir “pena” do autor e do jornal, dada a perspectiva cínica da matéria. De novo, um prêmio para o Benett: a reação de alguns leitores só comprova a segunda parte da reportagem, aquela em que conhecemos os que pagam até 300 reais pelo camarote abarrotado de “copos de plástico”. Os outros, nossos conterrâneos que jogavam bola e trocavam discos do James Dio com a gente no meio dos anos 80, são tratados até com… amor!

Talvez pior que a burrice dos agressivos detratores da matéria (e de outros produtos culturais irônicos) seja menos grave (depois do 11 de Setembro, houve quem publicasse artigo dizendo que o humor dos Simpsons havia acabado para sempre!). Todos temos nossas limitações. O irritante é a prepotência com que os “preocupados” se dirigem aos jornalistas e artistas, como se o provincianismo e a superstição que normalmente regulam suas escolhas lhe fornecessem uma espécie de Cajado da Sabedoria.

Antes de sair atirando, talvez fosse legal perguntar uma segunda opinião a respeito daquilo que provocou tanta gastura.

Por outro lado, para parafrasear Louis Armstrong, se você precisa perguntar, é porque nunca vai saber.

Republicamos a matéria do Benett aqui:

http://www.91rock.com.br/blog/novosseriados/?p=20

Studio 60 acabou por causa da “burrice” do público?

Postado dia 14 de setembro de 2008

Não.

Mas é o resultado da autópsia feita por 9 em cada 10 viúvos da série. Eu estou na margem do um por cento.

Studio 60 in the Sunset Strip foi um seriado com 22 episódios, temporada única, produzida por Aaron Sorkin para a NBC em 2006. Teve prestígio alto e audiência decepcionante. No Brasil, repetiu a vocação para cult quando foi exibida na TV a cabo, mas duvido que todos os leitores deste blog, nesse momento, saibam de que diabos estou falando.

Ontem vi o último episódio e, sem dúvida, engrosso o coro de lamento pelo fim do seriado, que tinha o ótimo Matthew Perry (fazia Chandler, o menos irritante dos Friends) como protagonista e foi produzida e escrita pelo mesmo camarada que criou e desenvolveu West Wing.

Mas não acho que a “estupidez” do público americano decretou o fim do projeto inovador. Os fãs reclamam até hoje que a audiência não “acompanhava” o “roteiro inteligente” e as “implicações profundas” da trama.

Não estou dizendo que o público americano – ou qualquer público médio – é brilhante (nem o contrário), mas também não reconheço em Studio 60 um roteiro assim tão complexo e muito menos vejo subtextos tão relevantes e secretos que impeçam o desfrute do programa.

Minhas hipóteses são: a) o seriado realmente era irregular, com um ou outro episódio concluído de forma insatisfatória; b) depois da metade, os conflitos essenciais foram resolvidos, e, nessa altura, passou a ser um programa mais de contemplação do que de tensão. O drama dos últimos quatro episódios parecia estrangeiro ao plot principal; c) Studio 60 mantinha uma atmosfera em que cristãos são tratados como insanos e patéticos.

É óbvio que o último item é justamente o elemento que promove a afeição de uns e o ódio de outros. Experimente escrever uma carta tratando o cristianismo como insanidade e leia em público. Uns poucos irão adorar, mas o resultado massivo…

Alguns leitores que assistiram ao Studio 60 talvez discordem a respeito desse diagnóstico. Na superfície, o programa não criticava os cristãos, tanto que uma das protagonistas, a batista militante Harriet Hayes (Sarah Paulson), promovia o conflito amoroso essencial da trama e gostávamos dela mesmo assim. O penúltimo capítulo termina com uma imagem (ridícula) do personagem Danny Tripp (Bradley Whitford) se ajoelhando para rezar pela vida da namorada e da enteada, numa solução que podemos chamar de conciliatório para não dizer palavrões.

Mas a vitalidade de um roteiro em produtos de entretenimento, ou pelo menos na maioria deles, é nossa identificação com o herói. E o herói é Matt (Perry): inteligente, esclarecido, amoroso, honesto, falível, work-a-hollic… e ateu. Quando ele ridiculariza as crenças de Harriet, nós vamos com ele, torcemos por ele. Somos ele.

Claro que eu, em particular, tenho motivos para gostar especialmente de Matt: sou homem, tenho 35 anos e moro sozinho, vivo para o trabalho, sou solidário com suas perspectivas liberais e anti-dogmáticas, sou cínico e faço piadas o tempo todo, mesmo quando estou deprimido. Como sou jornalista e trabalho com produção de TV, me encanto com bastidores… então é óbvio que estou na faixa dos telespectadores que se identificam com Studio 60.

Mas quantos estão nesse raio? Tenho inúmeros colegas, de mesma profissão (professores, inclusive) e quase da mesma faixa etária, que rezam regularmente, acreditam em coisas que vão de cristais a revolução comunista em Curitiba, acham que “humor tem hora” e pregam abstinência sexual! Se nesse grupo a aceitação da temática de Studio 60 é temerária, imagine entre a juventude que curte One Tree Hill, Dawson`s Creek, Sex in the City, Gossip Girl e dá os índices relevantes de audiência nos Estados Unidos?

O programa ainda tem, a seu favor, a inspiração descarada no Saturday Night Live e a franqueza de ambientar a trama nos próprios estúdios da NBC. No início do seriado, inclusive, os chefões da emissora são tratados como tubarões sem compromisso com qualidade ou dignidade de seus programas. Quer dizer: a NBC colocou no ar uma série que não deixava de criticar a própria televisão; mais que isso, a si própria. Quantas vezes a gente vê isso?

O Nevoeiro é outro horror dispensável?

Postado dia 3 de setembro de 2008

Não.

“O Nevoeiro” (The Mist), dirigido pelo mesmo Frank Darabont que assinou o ótimo Um Sonho de Liberdade e o demagogo À Espera de um Milagre, é mais uma adaptação de Stephen King.

Ele se serve de uma porção de clichês, “inspirações” que parecem misturar Os Pássaros, de Hitchcock e Mad Max, com o Mel Gibson, ao “cenário” do romance A Estrada, de Cormac McCarhty. Sem falar em todos os filmes sobre monstros e outras dimensões.

Muitas coisas são bastante previsíveis e até lgumas crianças adivinham o final; mais uma vez o enredo costtura as diatribes de personagens-tipo. A crente pirada, o pai intrépido, o pacoteiro que se revela um herói, o militar covarde, a bonitinha que espera o amor, a velhinha sabida, o negro bem-sucedido, etc.

Mas nada disso interessa.

Porque o filme não é sobre os monstros (eu até me decepcionei quando um dos militares revela o motivo da monstrarada… não precisava, não era relevante!).

O filme é sobre como as pessoas reagem a situações extremas. Ou melhor, como o desespero derruba as defesas e revela os traços mais determinantes de suas personalidades.

Recentemente testemunhei uma colega - dona de um saudável discurso de tolerância, preocupação social e amor pela profissão, motivo pelo qual, aliás, eu a admirava - usar a expressão “veadinho” para caracterizar o alvo de sua indignação. Quer dizer, na hora da fervura, a doença da homofobia foi mais forte que seu senso de civilização.

O “nevoeiro” trouxe o demoniozinho à tona.

Algumas pessoas realmente odiaram o filme. Outros acharam mais ou menos. Na primeira categoria, a Ivana Paulatti, professora de arte e parceira de data de aniversário. Para ela, que viu o filme com os dois filhos na mesma sessão que eu, “a coisa toda foi um clichê horrível, tão mal feito que eu só não fui embora antes de terminar porque estava no meio da fila”. O multi-artista e meu primeiro professor de inglês, o Almir Correia, também achou previsível demais, embora, assim como eu e parte da platéia, não tenha se contido em aplaudir na cena em que a louca messiânica tem seu destino selado.

Senti algumas coisas conservadoras no roteiro, mas o Paulo Camargo, editor do Caderno G, me convenceu do contrário. Para ele, que morou e estudou, fez mestrado nos Estados Unidos, O Nevoeiro descreve o mundo americano da fase Bush Jr. E a solução do fim não redimiria o exército. Não mesmo, pensando bem.

Eu me atrevo a suspeitar da “mensagem”: não desista da vida. Uma coisa meio conservadora, meio anti-aborto, anti-eutanásia. Por outro lado, essas interpretações sempre beiram a especulação forçada.

O melhor elogio do Paulo, enfim, nem foi sobre a “ética” de O Nevoeiro. Ele disse: “Os monstros são muito trash. Isso é que é legal”.

Michael Jackson é mau exemplo?

Postado dia 23 de agosto de 2008

Não. É um grande exemplo.

Michael Jackson chacoalha crianças na janela, deforma o próprio corpo com intenções muito obscuras, foi acusado várias vezes de pedofilia, construiu um parque de diversão para morar, expôs suas paranóias ao público sem nenhum esforço para se conter, parece ter se casado com a filha de Elvis Presley para completar a coleção que incluía os direitos sobre os Beatles.

Mas isso não muda o fato de que é um dos dois ou três maiores artistas da história.

E, por mais que, feito abutres, nos empoleiramos na frente da tv para assistir, com baba no canto da boca, a última loucura do cantor, nada apaga o que ele fez pela música popular.

E pela cultura negra.

Michael Jackson é um grande exemplo que talento e contribuição social não são consequências da moralidade. Sem dúvida, gostaríamos que ídolos tão carismáticos servissem de exemplo para condutas universalmente a